DEIXA-ME, CRUEL CIÚME, QUE TANTO ME MORTIFICAS, O QUE NÃO SABES SUSPEITAS, O QUE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Em vão, ciúme enganoso.

Usas teu fatal direito;

É de Nize o brando peito

Tão fiel, como formoso;

Se és um falsário orgulhoso.

Se atormentas por costume,

Se nunca ardeu outro lume

N’aquele coração puro,

Se eu sou o mesmo, que o juro,

Deixa-me, cruel ciúme.

Que importa que mutuamente

Com a alma as mãos nos demos,

E que sobre ela juremos

Amar-nos eternamente?

Se a esta chama inocente

O teu favor comunicas,

A furto em meu peito ficas;

E que importa amor tão belo,

Se és um contínuo flagelo

Que tanto me mortificas?

Alças a traidora mão

Ante o trono da verdade,

Puro amor, limpa amizade

As tuas vítimas são:

Podes mais do que a razão,

E a teus erros a sujeitas.

Em tudo o veneno deitas,

E, manchando intenções puras,

O que sabes desfiguras,

O que não sabes suspeitas.