DEIXA-ME, CRUEL CIÚME, QUE TANTO ME MORTIFICAS, O QUE NÃO SABES SUSPEITAS, O QUE...
Em vão, ciúme enganoso.
Usas teu fatal direito;
É de Nize o brando peito
Tão fiel, como formoso;
Se és um falsário orgulhoso.
Se atormentas por costume,
Se nunca ardeu outro lume
N’aquele coração puro,
Se eu sou o mesmo, que o juro,
Deixa-me, cruel ciúme.
Que importa que mutuamente
Com a alma as mãos nos demos,
E que sobre ela juremos
Amar-nos eternamente?
Se a esta chama inocente
O teu favor comunicas,
A furto em meu peito ficas;
E que importa amor tão belo,
Se és um contínuo flagelo
Que tanto me mortificas?
Alças a traidora mão
Ante o trono da verdade,
Puro amor, limpa amizade
As tuas vítimas são:
Podes mais do que a razão,
E a teus erros a sujeitas.
Em tudo o veneno deitas,
E, manchando intenções puras,
O que sabes desfiguras,
O que não sabes suspeitas.