Delírio do som

By João da Cruz e Sousa

O Boabdil mais doce que um carinho,

O teu piano ebúrneo soluçava,

E cada nota, amor, que ele vibrava,

Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.

Me parecia a música do arminho,

O perfume do lírio que cantava,

A estrela-d’alva que nos céus entoava

Uma canção dulcíssima baixinho.

Incomparável, teu piano — e eu cria

Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,

Bela, serena, vaporosa e nua;

Como as visões olímpicas do Reno,

Cantando ao ar um delicioso treno

Vago e dolente, com uns tons de lua.