DELÍRIO E CIÚME

By Laurindo José da Silva Rabelo

Mais nada resta a suspeitar!... Mais nada

O véu da falsidade encobrir pode!...

Do desengano ao lume, desesp’rada,

Atenta tudo vê, tudo conhece

Minha alma acesa em raiva, acesa em zelos!...

Que pretendias, pérfida?... Que ainda

Perdurasse a ilusão com que risonha

Entretinhas meus loucos pensamentos?

Que da paixão ao sopro envenenado

O lume da razão, perdendo a chama,

Jamais recuperasse?... Não! não pôde

Em mim de amor a força ganhar tanto!...

Mas oh! por que me ufano se ainda escravo

Geme o meu coração? Se inda deseja

Ver da tigre o semblante, ouvir-lhe as vozes?...

Tristes sortes dos míseros amantes,

De ingratos corações vítimas loucas!

Conhecem o algoz! e o algoz só querem!

Maldizem mão cruel, que os assassina,

E só acham nos braços do verdugo,

Alívio para o mal, que os atormenta!

Cegos, que pretendeis achar ventura

Entregues à paixão, que me devora!

Estultos! vede os males que me cercam!

Contemplai minhas ânsias! meus suspiros

Penetrem vossos peitos desgraçados!

Amei uma mulher, julguei que nela

Tudo era belo, tudo amável, terno:

Minha alma embalsamada pelo aroma

De meigas esperanças amorosas,

Só delícias gozava, só prazeres

Quando pensava nela, quando a via;

Meu peito era inocente, e a razão nova.

Na mente virgem de amorosas cenas,

Era a primeira trágica — Marfida! —

Roubou-me com enganos a traidora

Meus primeiros suspiros, meus carinhos,

Meus beijos, minhas queixas, meus desvelos!

Se de ciúme ardente o peito amante,

Irado, contra ela a voz erguia,

Um sorriso somente me bastava

Para apagar a lava em que fervia

Meu coração zeloso! Um olhar terno,

Delirante de amor, aos pés da infida

Em despojo a seus olhos me arrastava!

Num beijo desmaiava, embriagado

Por um licor divino que sentia

Difundir-se dos seus pelos meus lábios!

Quantas ditas gozei! quantos tormentos,

Já me causava a Ingrata antes da infâmia!...

Mas... tudo se passou!... Visões celestes,

Vossa tirana angélica pintura

Em quadros infernais está mudada!...

Leves pincéis de amor tendo quebrado,

Molhou da ingratidão a negra brocha

Nas tintas que as traições lhe ministraram,

E dentro da minha alta só vilezas,

Falsidades venais, cenas infames

Me desenha na mente desvairada!

Oh! como! com que cor, com que prodígio

Vendo estou daqui mesmo dos seus crimes

O retrato fiel, a forma viva!

Crestados pela luz da fantasia

Queimam-se os véus que envolvem o nefando

Leito onde fervem gozos impudicos!

Onde a luxúria treme em corpos trêmulos,

Exalando seu hálito empestado!

Ao sumo em comoção chegaram ambos:

Correm os beijos mais que o pensamento:

Juramentos de amor entrecortados.

Ouvem as fúrias presidindo o ato!

Os corpos mutuamente se comprimem...

E Deus em toda a parte!!!... e tudo vendo!!...

Nem o respeito ao céu lhe veda o crime

Que acesa a Salamandra em fogo impura,

Tem o céu nos prazeres desonestos

E seu Deus no mortal com que os goza...

E não brada vingança um tal delito?...

Risonha a Natureza a contemplá-la

Parece festejar seus desatinos!...

Bem; sucumba-se a sorte aos céus e ao fado;

Fartem-se com os jorros do meu pranto;

Contém-me as ânsias, contém-me os suspiros,

Formem eles um cântico de glória

Que ao seio paternal do Nume afague!...

Porém... que digo!... Lábios, que fizestes?...

Que disse!... oh! justo Deus! perdoa a Bardo:

Não guiou a razão falsários ditos:

Perdoa, justo céu! são tais palavras

Centelhas do vulcão em que me abraso!

Marfida escuta agora a voz do vate,

Onde a paz já domina; atende um pouco

À voz do coração aniquilado.

Que já livre das fúrias do ciúme,

Inda ardente de amor, mas já sem lavas,

Submergido nas trevas da tristeza,

É qual em fundo bosque, em noite escura,

Esqueleto de choça incendiada,

Sem chama, sem fumaça, em brasa viva!

Arguições não são, meu bem, são rogos!

Rogos, que meigo, terno, lacrimoso,

Suplicante, abatido, d’alma verto!

Marfida! muda um pouco esses transportes!

Dos lábios desse amante que idolatras,

Desapega teus lábios!... vem ao menos

Encostá-los nos meus envenenados

Para dar-lhes o seu contraveneno!

Cede às aflitas preces da minha alma,

Que sedenta te roga algumas horas,

Um minuto sequer de gozo antigo,

Da celeste ilusão dos teus enganos!...

Mas... sucumba a paixão; erga-se o homem!

Quebrem meus pés enfim as vis cadeias,

Que a seus pés arrastei! Mísero louco!...

Escárnio a meu rival, escárnio dela!

A taça em que sorvi divino néctar

Caiu-me aos pés quebrada; os vis fragmentos

Esmaguemos também! Nem mais teu rosto

Venham mostrar-me espelhos da memória!

Vai-te! Vai-te de mim... porém, não! fica,

Fica, que, se tu partes, vai contigo

Todo o meu coração, vai-se minha alma!...

Que ânsia tão aflita me sufoca!

Talvez a morte seja... Vem; não tardes,

Imagem da extinção, imagem santa

Do nada; ponte curta que nos leva

Da ilusão à verdade! Mesmo quando,

Castigo ou prêmio, nada depois dela

Exista para nós, o nada mesmo

Realidade é! Mortais tormentos

Suportará jamais quem não existe;

A vida entre prazeres vale a vida;

Mais que a vida em desgraça vale a morte.

Talvez, talvez, cruel, antes que um dia

Sobre o sepulcro d’outro a luz derrame,

Da vida o fio me rebente a morte!

Talvez amanhã mesmo sobre a campa,

Que meu já frio corpo frio espera,

Tu pises orgulhosa de meu fado!

Vai; que lá mesmo te darão meus manes

Uma prova de mais dos meus tormentos!

Gemidos que ouvirás na minha campa,

Sairão de meu peito inanimado;

Entre suspiros ouvirás teu nome

Por meus já mortos lábios repetido;

Que amor, essencial parte do espírito,

No espírito eterno, eterno viva.