DESCONFIADO O POETA DOS DESPREZOS QUE LHE FAZIA IGNACIA ENTRA A DESCOMPO-LA POR ...

By Gregório de Matos Guerra

Pariu numa madrugada

Inácia, como já vedes,

e caindo-lhe as paredes

ficou desemparedada:

temo, que não valha nada,

pois tendo o vaso partido,

qual pardieiro caído,

recolherá todo o gado,

ou das chuvas acossado,

ou das calmas retraído.

E vendo, que ali se apóia

o gado no pardieiro,

dirá todo o passageiro

tristemente “aqui foi Tróia”:

por aquela clarabóia

despedaçada em caqueiros

entrar eu vi cavaleiros,

que quando Tróia reinava,

apenas um a um entrava,

mas agora entram carreiros.

Não me espanto dos adornos

de uma Dama singular,

que em cornos venham parar,

porque ela parirá cornos:

mas que tantos caldos mornos

de estíticas qualidades

em tantas calamidades

não valham, são desenganos

da resolução dos anos,

da carreira das idades.

Deixai pois o artifício,

Inácia, porque bem vedes,

que ao baque de umas paredes

espirra todo o artifício:

deixai a vida do vício,

as que o seu vício eternizam,

e se a vós vos finalizam,

alerta, que as pedras falam,

que as paredes vos estalam,

que os estalos vos avisam.