DESCONFIADO O POETA DOS DESPREZOS QUE LHE FAZIA IGNACIA ENTRA A DESCOMPO-LA POR ...
Pariu numa madrugada
Inácia, como já vedes,
e caindo-lhe as paredes
ficou desemparedada:
temo, que não valha nada,
pois tendo o vaso partido,
qual pardieiro caído,
recolherá todo o gado,
ou das chuvas acossado,
ou das calmas retraído.
E vendo, que ali se apóia
o gado no pardieiro,
dirá todo o passageiro
tristemente “aqui foi Tróia”:
por aquela clarabóia
despedaçada em caqueiros
entrar eu vi cavaleiros,
que quando Tróia reinava,
apenas um a um entrava,
mas agora entram carreiros.
Não me espanto dos adornos
de uma Dama singular,
que em cornos venham parar,
porque ela parirá cornos:
mas que tantos caldos mornos
de estíticas qualidades
em tantas calamidades
não valham, são desenganos
da resolução dos anos,
da carreira das idades.
Deixai pois o artifício,
Inácia, porque bem vedes,
que ao baque de umas paredes
espirra todo o artifício:
deixai a vida do vício,
as que o seu vício eternizam,
e se a vós vos finalizam,
alerta, que as pedras falam,
que as paredes vos estalam,
que os estalos vos avisam.