DESCREVE A DEPLORÁVEL PESTE, QUE PADECEO A BAHIA NO A. 1686, A QUEM DISCRETAMENT...

By Gregório de Matos Guerra

Deste castigo fatal,

que outro não vemos, que iguale,

serei Mercúrio das penas,

e Coronista dos males.

Tome esta notícia a Fama,

para que voe, e não pare,

e com lamentáveis ecos

soe numa, e noutra parte.

Ano de mil, e seis centos

oitenta e seis, se contar-se

pode por admiração,

escutem os circunstantes.

Chegou a morte à Bahia,

não cuidando, que chegasse,

aqueles, que não temiam

seus golpes por singulares.

Representou-nos batalha

com rebuços no disfarce,

facilitando a peleja

para segurar o saque.

Mas tocando a degolar

levou tudo a ferro, e sangue

divertindo a medicina

com variar os achaques.

Fez estrago tão violento

em discretos, ignorantes,

em pobres, ricos, soberbos,

que nenhum pode queixar-se.

Ao discreto não valeram

seus conceitos elegantes,

nem ao néscio o ignorar,

que ofensas hão de pagar-se.

Ao rico não reparou

de seu poder a vantagem,

nem ao soberbo o temido

nem ao pobre o humilhar-se.

Ao galante o ser vistoso,

nem ao polido o brilhante,

nem ao rústico descuidos,

que a vida há de acabar-se.

E se algum quis de manhã

rosa brilhante ostentar-se,

chegava a morte, e se via

funesta pompa de tarde.

Emudeceu as folias,

trocou em lamento os bailes,

cobriu as galas de luto,

encheu de pranto os lugares.

Foi tudo castigo em todos

por esta, e aquela parte,

se aos pobres faltou remédio,

aos ricos sobraram males.

Para o sexo feminino

veio a morte de passagem,

deixando-lhe, no que via

exemplo para emendar-se.

Nos inocentes de culpa

foi a morte relevante,

que tanto a inocência livra,

quanto condena o culpável.

Pela caterva etiópia

passou tocando rebate,

mas corpos, que pagam culpas,

não é bem, que à vida faltem.

Já se via pelas ruas

de porta em porta chegar-se

um devoto Teatino

intimando a confessar-se.

Quem para a morte deixara

negócio tão importante,

porque as lembranças da vida

negam da morte o lembrar-se.

Os campanários se ouviam

uma hora em outra dobrarem,

despertadores da morte,

porque aos vivos lhe lembrasse.

Fez abrir nos cemitérios

em um dia a cada instante

para receber de corpos,

o que tinham de lugares.

Foi tragédia lastimosa,

em que pode ponderar-se,

que a terra sobrando a muitos,

se viu ali, que faltasse.

Os que nela não cabiam,

quando vivos, hoje cabem

numa sepultura a três,

quero dizer a três pares.

Viam-se as enfermarias

de corpos tão abundantes,

que sobrava a diligência,

para que a todos chegassem.

O remédio para as vidas

era impossível achar-se,

porque o número crescia

cada minuto, e instante.

Titubeava Galeno

com a implicância dos males,

porque o tributo das vidas,

mandava Deus, que pagassem.

O Senhor Marquês das Minas,

que Deus muitos anos guarde,

zeloso como cristão,

liberal como Alexandre:

Preveniu para a saúde,

Para que em tudo acertasse,

dividirem-se os enfermos

por casas particulares.

Este zelo foi motivo,

de que todos por vontade

(digo os possantes) mostraram,

serem próximos amantes.

Havia um novo hospital,

onde se admirou notável

o zelo de uma Senhora

Dona Francisca de Sande:

Mostrando como enfermeira

o desvelo em toda a parte,

e administrando a mezinha,

a quem devia de dar-se.

Consolando a quem gemia,

animando os circunstantes,

tolerando o sentimento

de que assim não acertasse.

Não reparando nos gastos

da fazenda, que eram grandes,

porque só quis reparar

vidas, por mais importantes.

O Marquês como Senhor

quis em tudo aventejar-se,

abrindo para a pobreza

os tesouros da vontade.

Repartia pelos pobres

esmolas tão importantes,

que o seu zelo nos mostrava

querer, que nada faltasse.

Publicando geralmente,

que a ele os pobres chegassem,

porque ao remédio de todos

sua Excelência não falte.

Mas se estava Deus queixoso,

que muito passasse avante

este castigo de culpas,

mais que inclemência dos ares.

Finalmente que a Bahia

chegou a extremo tão grande,

que aos viventes parecia

querer o mundo acabar-se.

Punha a morte cerco às vidas

tão cruel, e exorbitante,

que em três meses sepultou

da Bahia a maior parte.

Ah Bahia! bem puderas

de hoje em diante emendar-te,

pois em ti assiste a causa

de Deus assim castigar-te.

Mostra-se Deus ofendido,

nós sem desculpa que dar-lhe;

emendemos nossos erros,

que Deus porá termo aos males.