DESCREVE A VIAGEM, QUE INTITULOU DOS ARGONAUTAS DA CAJAIBA PARA A ILHA DE GONÇAL...

By Gregório de Matos Guerra

Era a Dominga primeita

desta quaresma presente,

já eu estava na praia,

seriam seis para as sete.

Estava o dia formoso

por ser hora, em que se veste

a esfera de azul, e ouro

com seus renglaves de neve.

A aurora teve bom parto,

pois botou em tempo breve

um menino como um sol

para alegria das gentes.

Gritei eu: ah Sor Gregório,

ele desperto gritou,

aqui estou, e Sor Silvestre.

Só falta o Pissarro moço:

já foi chamá-lo o moleque,

e em se juntando conosco

estamos prestes, e lestes.

Toda a noite não dorrni

com pensamento no beque,

que há de levar-nos à ilha,

onde façamos um frete.

Não tem, que me despertar,

que eu escuso, me despertem,

porque para esta viagem

estive de acordo sempre.

Os três à praia chegaram,

e eu no bergantim co’a gente

mandei embarcar a todos

um por um, ele por ele.

Botamos a Nau no mar

um bergantim excelente

nos nossos mares nascido

obra do estrangeiro mestre.

O alforje lá me esquecia,

disse eu, e a vocês lhes esquece:

mandei logo um negro à casa,

que fosse num pé, e viesse:

Veio logo carregado

o negro com uma serpe

de bananas, e farinha,

e al não disse o tal negrete.

Fomos, e dobrando o mangue

encontrarnos um banquete,

em que vem Miguel Ferreira

cercado de muita gente.

Allons, allons, lhe dissemos,

e ele nos disse: salvete,

trespassamos o saveiro,

que ia então vendendo azeite.

Fomos à costa correndo,

e ajudados da corrente

de Chico o porto tomamos,

que estava manso, e alegre.

Tocou-se logo a trombeta,

que um búzio era potente,

um sinal de haver chegado

a capitânia do Ostende.

Deu-nos uns poucos de apupos,

e vendo, que Chico desce,

embarcou-se, e socorreu-nos

com China, e melado quente.

Fomos seguindo a viagem

tão folgazões, tão alegres,

que até as duas guitarras

iam folgando de ver-se.

Assim chegamos à Ilha,

e sobre areias de neve

dezoito chancas saltavam,

com que a Ilha se estremece.

Perguntei por Esperança,

e soube, que estava ausente.

Chico, que entonces servia

de guia dos nossos fretes.

Quis-me eu então repelar,

tendo pouco, que repele,

disse mal da minha vida,

de mim mesmo maldizente.

Corremos a Ilha toda,

por sinal, que o bom Silvestre

fez um letreiro na areia,

cuja letra isto refere.

“O Senhor da Ilha é um Asno”

e foi disto tão contente,

como se no tal letreiro

uma asneira não fizesse.

Nós lhe estranhamos a asneira,

e ele arreganhando os dentes,

a celebrou como sua,

por não ter, quem a celebre.

Achamos uma Mulata,

que estava ali num casebre,

que eu não fretei, por ser Nau

já carregada por prenhe.

Tornamo-nos a embarcar

algum tanto descontentes,

porque em toda a Ilha achamos

dois maracujás somente.