DESCREVE AGORA O POETA, COMO OBRIGÀRAM HUM SUGEYTO A CASAR COM HUMA MOÇA, TENDO ...

By Gregório de Matos Guerra

Casou Filipa rapada

com o Guapo do lugar,

e porque quis bem casar,

ficou arto mal casada:

hoje é a mal maridada

do sítio de São Francisco,

porque o Guapo vendo o risco,

que seu crédito corria,

em vez de dar-lhe a maquia

se contentou cum belisco.

Que não consumou, se fala,

porque o Noivo em tanta glória

se pôs fraco de memória,

e esqueceu-lhe a cavalgá-la:

a Noiva fez disto gala,

porque ficou co’a honrinha,

e ele diz, que assim convinha:

porque se um homem de bem

não tira a honra a ninguém,

menos a quem a não tinha.

Ele está mui arriscado

a um sucesso infeliz,

porque o que dele se diz,

é, que o tinha bem provado:

a mim me não dá cuidado

ver, que o Noivo consentiu,

porque se a Noiva dormiu,

e diz, que o há de provar,

se cumpriu, hei de eu mostrar,

que já provou, e cumpriu.

Fez o Noivo às carreirinhas

uma airosa retirada,

vendo estar fortificada

a praça com tantas linhas:

mas eu já por contas minhas

tenho a maranha entendida,

e é, que o Noivo em sua vida

não quis, que o Povo malvado

dissesse, que andava assado

por uma mulher cozida.

Se coseu o berbigão,

como diz a gente toda,

muito a Moça me acomoda

para arrais de um galeão:

porque se a sua intenção

foi acaso em tanta bulha

meter (fora vá de pulha)

uma fragata alterosa

por barra tão perigosa

é, que se fiou na agulha.

O Noivo se veio embora,

e ela chora, ao que eu creio,

porque o Noivo se não veio,

não entendo esta Senhora:

mas o que se teme agora,

é, que um dos Cunhados mande,

que o pleito vá a Roma, e ande;

eu não sei, que demo o toma,

pois quer, que passe por Roma

mulher de nariz tão grande.