DESCREVE METHAFORICAMENTE AS PERFEYÇÕES DE HUMA DAMA PELOS NAYPES DA BARALHA.
Pelos naipes da baralha
vos faço, Nise, um retrato,
levantai, que eu dou as cartas.
Saiu de ouros. Vou trunfando.
Ouro é o vosso cabelo,
e de preço, e valor tanto,
que desse pêlo as manilhas
eu co’a espadilha não ganho.
A testa é de outro metal,
que na baralha não acho,
que muito, que me ganheis,
se jogais com naipes falsos.
Não acho em toda a baralha
o naipe de prata, salvo
copas: são copas de prata,
que à vossa testa comparo.
Os olhos são matadores,
verbi gratia, sota, e basto
com que me dais os capotes,
e com que vaza não faço.
Em vosso rosto o nariz
grande, nem pequeno o acho,
que isso é carta, que não joga,
e diz, se joga, eu me ganho.
Boca, e dentes são espadas
pelo risco, e pelo estrago,
que vão às almas fazendo,
se os ides desembainhando.
Os dous peitos, e a garganta
é um jogo soberano
de sota, cavalo, rei,
e garatusa com ganhos.
As mãos vós todas ganhais,
porque nas cartas pegando
todos os trunfos vos tocam,
e as minhas pintais em branco.
Para ser o vosso pé
não acho em todo o baralho
mais que o ás, que val um ponto,
como tem vosso sapato.
Porém a carta coberta,
que metem assaz picado,
eu vo-la direi depois,
que inda vou bruxuleado.