DESCREVE O DIVERTIMENTO QUE TEVE COM ALGUNS AMIGOS INDO AOS CAYJÚS.

By Gregório de Matos Guerra

Valha o diabo os cajus,

que a todos tem degradado,

uns vão caminho das ilhas,

outros caminho dos campos.

Assim me coube por sorte

ir um dia degradado

para a de Jorge de Sá,

que é ilha dos mEus pecados.

Saímos com vento em popa,

mas no mais triste pangaio,

que nasceu de embarcações,

de que foi Eva a Nau Argos.

Desembarcamos em terra,

e querendo registar-nos

com nossas cartas de guia,

que nos deu o saibam quantos:

Achamos deserta a ilha

sem câmara, nem senado,

que os cajus são restringentes,

não houve câmara este ano.

Tornamo-nos a embarcar

no mesmo triste pangaio

em demanda de outra ilha,

em que o degredo compramos.

Não pudemos tomar terra

porque era o vento contrário,

assoprava pelo olho,

e era o tal olho o do rabo.

Porque vento tão maldito,

e tão despropositado

só por tal olho saíra,

para nos ir espeidando.

Tomamos porto na pátria

depois de tantos trabalhos,

fomes, que em terra curtimos,

sustos, que no mar tragamos.

Fomos mui bem recebidos,

porque o passado passado,

e sobre os cargos da culpa

nos deram logo outros cargos.

Todos saímos com vara,

como meirinhos do campo

sobre os pobres dos cajus

prendendo, e executando.

Indo a eles uma tarde,

prendemos quase um balaio,

outros deixamos pendentes,

que é o mesmo, que enforcados.

Os maduros se prenderam,

que era a ordem, que levamos,

mas os verdes se enforcaram,

por serem cajus velhacos.

O Meirinho-mor do Reino,

que é Custódio Nunes Daltro,

não larga a vara, e os cajus

andam como homiziados.

Tem uns alcaides pequenos,

que andam correndo esse campo,

e vão ligeiros de pé

por vir pesados de papo.

Este castigo merece

Cururupeba afamado,

porque os engenhos não moem,

e o rio é, quem paga o pato.

Em se acabando os cajus,

as varas vão co diabo,

salvo formos meirinhar

aos airus por esses campos.