DESCREVE O ENCONTRO, QUE TEVE COM A MULATA ESPERANÇA NO SITIO DA CATALLA.

By Gregório de Matos Guerra

Na Catala me encontrei

onte onte com Esperança

e porque à Catala fui,

dizem, que fui a catá-la.

Mentem por vida d’El-Rei,

que mal podia ir buscá-la,

quem em sua negra vida

não tinha visto tal Parda.

Dei em buscá-la ao depois

porque a boa da Mulata

fez de andar por mim perdida

os meios de ser buscada.

Dei com ela, e perguntando,

onde vivia, e morava,

de quem era, a quem servia,

e se andava amancebada;

Ela respondeu em forma,

e disse as formais palavras

“eu, meu Senhor dos meus olhos,

e meu Doutor da minha alma,

sou cativa de você

e de Luiz Correia escrava,

onde vivo, é lá na Ponta,

onde mato, é na Catala.

Amancebada não sou,

porque a sorte me guardava

este encontro de você

para enlaçar-nos as almas.

Aqui estou a seu serviço,

veja agora, o que me manda,

que se me manda assentar,

me verá logo deitada.

Não sou mulher de invenções,

que cerimônias não gasta

com os homens de respeito,

quem corre do mundo a mafra.

Agradeci-lhe os favores

com meu par de pataratas,

fui-me chegando para ela,

fui-lhe erguendo logo as fraldas.

Fui pelas fraldas ao monte,

e quando lhe pus a palma,

foi pouca para o cobrir,

porque o monte era montanha.

Foi isto na capoeira,

e ela me cacarejava

tanto, que como à galinha,

eu galo deitei-lhe a gala.

Outra gala me pediu,

que eu prometi com mão larga,

e a hei de galar mais vezes

por lhe cumprir a palavra.