DESCREVE O PERIGO EM QUE O POZ NA ILHA DE Me. DE DEOS HUMA VACCA FURIOSA CHAMADA...

By Gregório de Matos Guerra

Tem Lourenço boa a taca,

fomos tourear ao pasto,

e depois de tanto gasto

o tourinho era uma vaca

Lourenço na sombra opaca

de um pé de limões grosseiro,

eis a vaca pelo cheiro

deu com ele, e ele então

por não morrer na prisão

arrombou o Limoeiro.

Tomou da praia o retorno,

porque o morrer melhor é

na reponta da maré

do que na ponta de um corno:

eu com notável sojorno

numa capoeira estava,

vendo, em que o caso parava,

e a vaca com seu focinho

me tratou como a ratinho;

pois qual gato me miava.

Temi logo a malquerença

da vaca tão marralheira,

e o medo me deu em reira,

que é melhor do que em corrença:

rompi pela mata densa,

e dei com meu envoltório

de um vale no território,

tomando por meu sossego,

não las de Villa Diego,

mas as de Vila Gregório.

Subi num monte comprido,

que do vale é Polifemo,

que quando uma vaca temo,

subo mais do que um valido:

vim à casa espavorido,

achei Lourenço pasmado,

mudo, e desassisado,

e eu disse: se escapo, vaya,

que quem fugiu pela praia,

força é que esteja areado.

Deu-se-nos grande matraca,

e com ser dia de peixe,

sem que a consciência se queixe,

todos gostamos da vaca:

o Padre aguçou a faca,

e afeiçoou um bordão,

e tais ralhos disse então,

que me convidou enfim

para diante de mim

dar na vaca um bofetão.

Mas eu não tornei ao mato,

e ao Padre, que me chamava,

respondi, que não gostava

de vaca, senão no prato:

e terei por insensato,

a quem com pau, ou com faca,

brigar com rês tão velhaca

a quem razão não convence,

nem terá prêmio, quem vence

um touro, se o touro é vaca.

Custódio, que é prudente,

pacífico, e sossegado,

topou na costa co gado,

e entre ele a vaca nocente:

e em se pondo frente a frente

a vaquinha, que o aguarda,

e em dar carreiras não tarda,

disparou como uma seta,

com que lhe deu a vaqueta

mais susto, que uma espingarda.

Tomou o monte de um pulo,

e deu consigo no vale,

sem dar jeito, a que o iguale

a ligeireza de um mulo:

mas o meu Mestiço fulo

o emparelhou no correr

donde veio a suceder,

que Custódio um pé retroce,

sendo pé, que se não troce,

quando o dono o há mister.

A vaca é terror da aldeia,

pois faz armada de sanha

praça de armas a montanha,

e a praça veiga de areia:

todo o mundo se receia

de inimiga tão comua,

porque armada a meia-lua

parece pelo cruel

talvez Fatimá de Argel,

talvez de Salé Gazua.

Não vi vaca tão ousada

de mais brio, e fantesia,

pois traz toda a freguesia

corrida, e envergonhada:

murmura a gente pasmada,

que uma vaca parideira

nos pusesse em tal fraqueira,

e eu tal medo lhe concebo,

que, quando o leite lhe bebo,

me dá logo em caganeira.

Senhor Estêvão, que é dono

da rês, que o branco divisa,

já que lhe deu a camisa,

faça-a mansa como um sono:

e se não em alto tono,

quando a vaca se remangue,

tirei morto ao pé de um mangue,

que se trata de a manter

para o leite lhe beber,

isso é beber-nos o sangue.

O Senhor Domingos Borges,

que é sujeito de feição,

se resistir seu Irmão,

responda-lhe logo: alforjes:

e tu, vaca, não me forjes

outra traição mais precisa,

a passada passe em risa,

mas se vens noutra ocasião

a furar-me o casacão,

hei de rasgar-te a camisa.