DESCREVE O POETA AS FESTAS DE CAVALLO QUE SE FIZERAM NO TERREYRO EM LOUVOR DAS ONZE MIL VIRGENS, SENDO ESCRIVÃO EUZEBIO DA COSTA REYMÃO FILHO DE MARIA REYMOA; EM QUE ASSISTIRAM ESTES DOUS PRINCIPES PAY, E FILHO COM O MAYOR DA NOBREZA NO COLLEGIO DE JESUS.

By Gregório de Matos Guerra

Clóris, nas festas passadas

que às virgens são prometidas

houve quadrilhas corridas

parentas de envergonhadas:

porém estas realçadas

vi neste ano derradeiro:

pois na esfera do Terreiro

aparecia um Brandão,

que correndo exalação,

acabava cavaleiro.

Com estas aparições

de cometas tão luzidos,

nos mirões espavoridos

eram tudo admirações:

em máximas conjunções

de ouro, de prata, e de cores,

notei que os Festejadores

faziam com graças sumas

no ar um jardim de plumas,

e na terra um mar de flores.

Sua Excelência assistia,

o Conde, e toda a Nobreza,

e os padres por natureza

lhes faziam companhia:

estava sereno o dia,

a esfera toda anilada,

a água do mar estanhada,

brando o vento e lisonjeiro,

e contudo no Terreiro

houve muita carneirada.

Enfim a festa passada

tão cheia de cavaleiros,

se a fizeram dois Barbeiros,

não seria mais sangrada:

ali vi dar cutilada,

que todo o vento dissipa,

do bruto, que a participa,

e eu disse, pasmado e absorto,

que a catana era do Porto,

por rilhar sempre na tripa.

Logo e da primeira entrada

houve jogo de manilha,

que para isso a quadrilha

pêlo lindo era pintada:

quem lhe dava uma encontrada,

tudo então nos agradava,

pois conforme ouvi julgar

ali entre dar, e levar

pouca vantagem se dava.

Cada qual sem mais tardança,

à dama a quem mais se aplica,

levou na ponta da pica,

o que ganhou pela lança:

até o Padre Hortolança,

digo, o Cônego Gonçalo,

se logrou deste regalo:

eu só na baralha ingrata,

não vi manilha de prata,

que na de ouros já não falo.

Ao Marinho generoso

o dia franco, e escasso

concedeu-lhe o Galanaço

recatando-lhe o ditoso:

e visto que por airoso

é o Adônis da quadrilha

Zundu se lhe rende, e humilha,

dando-lhe (porque o conforte)

no cravo a primeira sorte,

a segunda na manilha.

Barreto alheio do susto,

que não implica amostrado

nem ao forte o asseado,

nem ao galante o robusto:

luzimento a pouco custo,

bom ar sem afetação,

foi julgado, em conclusão,

que a destreza o não desvela,

pois sem cuidado na sela,

caía no capressão.

Muito Eusébio se desvela

em correr mais que ninguém,

e por correr sempre bem

nunca se assentou na sela:

como há de sentar-se nela,

se correr só pertendia

tão propriamente o fazia,

que se assentar, e correr

não podem juntos caber,

não se assentava, corria.

O valeroso Muniz

em gala, cavalo, e arreio,

quanto ganhou pelo asseio,

o perdeu pelo infeliz:

o que eu vi, e a terra diz,

é que de muito adestrado,

andou tão aventejado,

que a voz do povo levou,

com que desde então deixou

o Povo mudo, e pasmado.

Outro Muniz valentão

o fez tão perfeitamente,

que sendo em sangue parente

era na destreza Irmão:

pelo forte em conclusão

deixou de si tal memória,

que por sua, e nossa glória,

(deixando aos demais em calma)

fez pouco em levar a palma,

sendo filho da Vitór

Do Bolantim a cavalo

dizia o Povo gostoso,

que era da festa o gracioso,

e eu digo que era o badalo:

quem chegou a ponderá-lo

correndo sobre a Rucina,

revirar a culatrina,

perni-aberto para o ar,

a que o pode comparar

mais que a um sino que se empina?

Ao Araújo famoso

no princípio da carreira,

resvelou-lhe a dianteira

o cavalo furioso:

cego, arrojado e fogoso,

entre uns baetas meteu-se:

quem sentado estava, ergueu-se:

porém o baixel violento

como ia arrasado em vento,

deu nuns bancos, e perdeu-se.

Caído o moço infeliz,

houve grita e alarido,

sendo que cai o entendido

em tudo, que se lhe diz:

ergueu-se em menos de um triz,

e pondo-se na vareda

correu com cara tão leda,

que causou admiração

em todos; porque já então

tinha ele com todos queda.

Um sobrinho do Frisão

ao cheiro acudiu dos patos,

porque é em públicos atos

mui ousado um patifão:

presa a rédea a um arpão,

nos estrivos dois arpéus

pus eu os olhos nos céus,

e disse que bem podiam

louvar a Deus, os que viam

a cavalo um Louva-Deus.

Uma aguilhada por lança

trabalhava a meio trote,

qual o Moço de Dom Quixote,

a que chamam Sancho Pança:

na cara infame confiança,

na sela infame perneta,

e com tramóia discreta,

ia sobre o seu jumento

pelo arreio, e nascimento

à bastarda e à gineta.

Ele andou tão desestrado,

que para dar-lhe sentido

o cavalo era o corrido,

e ele o desavergonhado:

estava o Frisão pasmado

de gosto babando o freio,

por ser de razão alheio

ver-se com tão pouco abalo

não no centeio a cavalo,

mas no cavalo o centeio.

A este filho universal,

com três Pais e três Padrastos

todo vestido de emprastos,

se emprastado o mesmo val:

se seguia um cirragal,

de quem tomavam modelos

para a corcova os camelos,

cuja perna dobradiça

sempre a memória me atiça

da rua dos cotovelos.

No Menino Ascânio falo,

que o Pai Enéias a murro

devendo de o pôr num burro

o deixou pôr a cavalo:

este menino ia ao galo

e encontrou-se co’a galhofa,

onde servira de mofa,

os dias, que ali gastara,

se um braço lhe não quebrara,

e o mandaram numa alcofa.

Lá vem o Chico às carreiras

dando esporadas cruéis,

numa sela de arambéis

vestido de bananeiras:

nas Laranjadas primeiras

teve tão adversa estrela,

que caiu na esparrela,

não como Rola, em verdade,

porque a queda foi de frade,

pois logo agarrou da sela.

Às festas não deu desmaio

nenhum destes entremezes,

que não há ouro sem fezes,

nem comédia sem lacaio:

qualquer correu como um raio

e fez sua obrigação,

exceto o boi do sertão,

sendo, que alguém lhe cobiça

o resistir à justiça,

e dar co’a forca no chão.

O lindo Eusébio da Costa

escrivão das onze mil,

por assombrar o Brasil

fez tudo de sobre-aposta:

cos passados deu à costa,

e excedeu a toda a lei:

e assim eu sempre direi

hoje e em toda a ocasião,

que o ser por Costa Reimão

he vem por ter mão de Rei.