DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.
É justa razão, que eu gabe,
boca, a vossa perfeição,
porque vos caiba a razão,
onde a razão vos não cabe:
quem conhecer-vos não sabe,
não teme tamanha empresa,
que vos faz a natureza,
para ser do mundo espanto,
pois nele não cabe tanto,
como na vossa grandeza.
Os extremos, que mostrais,
quando esses beiços abris
lisos, delgados, sutis,
brancos, como dois cristais,
em nada são naturais,
que até esses dentes belos
usurparam aos cabelos,
e tem com eles trocada
a cor castanha, e dourada,
e são pardos, e amarelos.
E se os outros escondidos
somente o riso os declara,
vós, boca, de pouco avara
os tendes desimpedidos:
porque todos os sentidos
os tenham sempre presentes,
os olhos sempre luzentes
podem sem pestanejar
em tão remoto lugar
ver a beleza dos dentes.
Amor, que as almas condena,
por melhor as conquistar,
para ensinar a atirar,
que sejais meu branco ordena:
não creais, que por pequena
vos há de errar a medida,
antes minha alma duvida
de escapar-lhe em toda a toca,
se a medida dessa boca
houver de dar a ferida.
Aviso, graça, e saber,
amor, cuidado, e desejos,
quando for grande o bocejo,
em vós não se hão de esconder:
tesouro não podeis ser,
mas sois mina descoberta,
sendo cousa muito certa,
que a serem os dentes de ouro
éreis má para tesouro,
por andares sempre aberta.