DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.

By Gregório de Matos Guerra

É justa razão, que eu gabe,

boca, a vossa perfeição,

porque vos caiba a razão,

onde a razão vos não cabe:

quem conhecer-vos não sabe,

não teme tamanha empresa,

que vos faz a natureza,

para ser do mundo espanto,

pois nele não cabe tanto,

como na vossa grandeza.

Os extremos, que mostrais,

quando esses beiços abris

lisos, delgados, sutis,

brancos, como dois cristais,

em nada são naturais,

que até esses dentes belos

usurparam aos cabelos,

e tem com eles trocada

a cor castanha, e dourada,

e são pardos, e amarelos.

E se os outros escondidos

somente o riso os declara,

vós, boca, de pouco avara

os tendes desimpedidos:

porque todos os sentidos

os tenham sempre presentes,

os olhos sempre luzentes

podem sem pestanejar

em tão remoto lugar

ver a beleza dos dentes.

Amor, que as almas condena,

por melhor as conquistar,

para ensinar a atirar,

que sejais meu branco ordena:

não creais, que por pequena

vos há de errar a medida,

antes minha alma duvida

de escapar-lhe em toda a toca,

se a medida dessa boca

houver de dar a ferida.

Aviso, graça, e saber,

amor, cuidado, e desejos,

quando for grande o bocejo,

em vós não se hão de esconder:

tesouro não podeis ser,

mas sois mina descoberta,

sendo cousa muito certa,

que a serem os dentes de ouro

éreis má para tesouro,

por andares sempre aberta.