DESCREVE O POETA HUMA JORNADA, QUE FEZ AO RIO VERMELHO COM HUNS AMIGOS, E TODOS ...

By Gregório de Matos Guerra

Amanheceu finalmente

o Domingo da jornada

co’a mais feia madrugada,

que viu nunca o Oriente:

bufava o Sul de valente,

de soberbo o mar roncava,

ninguém a briga apartava,

e eu perplexo, mudo, e quedo

entre valor, e entre medo

en salgo, y no salgo estava.

Resolvi-me, e levantei-me,

posto que o quente da cama

com Gonçalo, e com sua ama

dizendo estava, comei-me:

vesti-me, e aderecei-me:

batem os pais de ganhar,

mandei-lhes abrir, e entrar,

estava a rede à parede,

e em pondo o vulto na rede,

comecei de caminhar.

Cheguei a São Pedro, e em vão

busquei os mais companheiros,

que devendo ir os primeiros,

não tinham ido até então:

entrei na imaginação

de se acaso me enganassem,

e acaso as bestas faltassem,

que havia eu de fazer,

e foi fácil resolver,

que por bestas lá ficassem.

Assim o cri, e era assim,

pois o pouco espaço andado

veio o Jardim esbofado

mais rosado, que um jardim:

não vem mais outro rocim?

lhe perguntei com desdém:

ele respondeu, não vem;

estive aguando os canteiros,

e não acho os companheiros,

pois não me cheira isto bem.

Isto dito, assoma o Freitas,

e eu disse entre duvidoso,

o Gil é-me belicoso

mas tem cara de maleitas:

chegou, e as minhas suspeitas

veio tanto a confirmar,

que disse, que o seu tardar

fora causado, e nascido

de o rocim lhe haver fugido,

indo ao Tororó parar.

Quem deu tão ruim conselho

(disse eu) a esse catrapó,

pois quer ir ao Tororó,

antes que ao Rio Vermelho?

mas um cavalo tão velho,

que já por cerrado perde,

que muito, que se deserde

do vermelho, e seus primores,

se deixa todas as cores

um cavalo pelo verde.

Que é do Gil? não aparece.

E o Guedes? fica sem besta.

Eia pois, vamo-nos desta,

que o sol trepa, e a calma cresce;

quem não aparece, esquece;

vamo-nos sem conclusão;

com que eu na rede um cação,

e os dous nas duas cavalas

fazíarnos duas alas,

e as alas meio esquadrão.

Assim fomos caminhando

sobre os dous cavalos áscuas

alegres como uas páscoas,

ora rindo, ora zombando:

eu que estava perguntando

pela viola, ou rabil,

quando ouvimos bradar Gil,

que recostado à guitarra

garganteava a bandarra

letrilhas de mil em mil.

Olá, ô! chegou o Tudesco:

e já ele entre nós vinha

posto sobre uma tainha,

feito Arião ao burlesco:

riu-se bem, falou-se fresco,

e eu da viola empossado

cantava como um quebrado.

tangia como um crioulo,

conversava como um tolo,

e ria como um danado.

Apertamos logo o trote,

e em breve fomos chegados,

onde éramos esperados

pelo ilustre Dom Mingote:

ali o nosso sacerdote,

vendo a nova arquitetura

da casa da Virgem pura,

se apeou por venerá-la,

os mais puseram-se em ala,

passei eu, e houve mesura.

Tornamos a cavalgar,

e vendo tão pouco siso,

tomou o dia tal riso,

que se pôs a escangalhar:

parou tudo em chuviscar,

e os malditos cavaleiros

picaram tanto os sendeiros

que eu mesmo não entendia,

que sendo cavalaria,

fugissem como piqueiros.

Eu fiquei com minha mágoa

solitário, e abrasado,

dando-me pouco cuidado,

que a rede nadasse em água:

por seu ofício se enxágua

toda a rede nágua clara,

e se esta se não molhara,

com abalo, ou sem abalo

nem eu vira o São Gonçalo,

nem também jantar pescara.

Orvalhado um tanto, ou quanto

o santo me agasalhou,

e logo a chuva passou,

que foi milagre do santo:

tratava-se no entretanto

da missa, e estando esperando,

ali vieram chegando

duas belezas ranhosas,

sempre à vista bexigosas,

e feias de quando em quando.

Para a missa do Santinho

mui pouco vinho se achou,

e ele fez, que inda sobrou,

porque é milagroso em vinho:

tomamos dali o caminho

para o porto das jangadas

ver as casas afamadas

do nosso Domingos Borges,

que sem levarmos alforjes

nos pôs as panças inchadas.

O Gil, que é tão folgazão

se foi ao pasto folgar,

e se outra cousa há de achar,

achou um camaleão:

lançou-lhe intrépido a mão,

e com pulsos tão violentos

cortou ao bruto os alentos,

que depondo o bruto a ira

disse, que depois o vira,

pelo Gil bebia os ventos.

Deu-nos gosto, e prazer arto

um caçador tão gentil,

porque vimos, que era o Gil

mais lagarto, que o lagarto:

e assim como estava farto

de vento o camaleão,

Gil assim de presunção

tão inchado estava, e duro,

que foi força dar-lhe um furo

para ter evacuação.

Sopas de leite almoçamos,

e logo o Guedes chegou,

que nem pão, nem leite achou,

e achou, que o apregoamos:

mas todos depois jantamos

uma olha imperial,

e houve repolho fatal

ensopado, e não de azeite

com pratos de arroz de leite,

e vontade garrafal.

Já levantados da mesa

se quis cantar, senão quando

a pança me estava impando

a goela entupida, e presa:

eu tenho esta natureza,

que depois de manducar

não me é possível piar:

será, porque certarnente

pança farta, e pé dormente,

como é adágio vulgar.

Sesteamos no areal

onde o mar por mazumbaia

refrescando estava a praia

com borrifos de cristal:

a onda piramidal,

que nos ares se desata,

descaindo em grãos de nata

pedia por bom conselho,

que em vez de Rio Vermelho

lhe chamem Rio da Prata.

O Sol vinha já descendo

por graus, ou degraus do Céu,

e a todos nos pareceu

o irmo-nos acolhendo:

foram-se os rocins prendendo,

e selados, e enfreados,

allons dissemos a brados

já postos nos cavalinhos,

e alvoroçando os caminhos

chegando, fomos chegados.