DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S. GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA D...

By Gregório de Matos Guerra

Fui à missa a São Gonçalo,

e nunca fora à tal missa,

que uma custa dous tostões,

e esta há de custar-me a vida.

Estava eu fora esperando,

que o Clérigo se revista,

quando pela igreja entrou

o sol numa serpentina.

Uma mulher, uma flor,

um Anjo, uma Paraninfa,

sol disfarçado em mulher,

e flor em Anjo mentida.

Fui ver a metamorfósis,

vi uma moça divina

ocasionada da cara,

quando arriscada de vista.

Onde tal risco se corre,

ou onde tanto se arrisca,

que menos se há de perder,

que a liberdade, e a vida.

Desde então fui seu cativo,

seu morto daquele dia,

e dentre ambos quis Amor,

que só o cativo lhe sirva.

Serve o cativo talvez,

mortos não têm serventia,

e se tiver de matar-me

vanglória, o terei por dita.

Por entre a nuvem do manto,

que a luz própria então vencia,

às claras estive vendo

aquela estrela divina:

Aquele sol soberano,

que pela elítica via

de seu rosto anda fazendo

um solstício a cada vista.

Acabou-se a missa logo,

e foi a primeira missa,

que por breve me enfadou,

pois toda a vida a ouvira.

Foi-se para sua casa,

e eu a segui a uma vista,

passou o rio, e cobrou-se,

cheguei ao rio, e perdi-a.

Vi-a no monte, e lhe fiz

co chapéu as despedidas,

e lhe inculquei meu amor

por meio da cortesia.

Não tornei a São Gonçalo,

nem tornarei em meus dias,

que entre beleza, e adorno

todo o home ali periga.