DESCREVE OUTRA FUNÇÃO IGUAL, QUE NO SEGUINTE ANNO ESTAS, E OUTRAS MULATAS DA MES...

By Gregório de Matos Guerra

Tornaram-se a emborrachar

as Mulatas da contenda,

elas não tomam emenda,

pois eu não me hei de emendar:

o uso de celebrar

àquela Santa, e a esta,

com uma, e com outra festa

não é devoção inteira,

é papança, é borracheira

dar de cu, cair de testa.

Bebeu Pelica, um almude,

e não faltou, quem notasse,

que mil saúdes tragasse;

e ficasse sem saúde:

caiu como em ataúde,

sendo mortalha as anáguas,

e eu entrei num mar de mágoas

vendo a casaca, que era

finíssima primavera,

ficar chamalote d’águas.

Vomitou toda a casaca,

e as Mulatas desconvinham

que umas por vômito o tinham

outras o tinham por caca:

levou sobre isto matraca

entre riso, e murmurinho,

e a carinha com focinho

lhe armou de grande altivez,

mas resvelando-lhe os pés

nadou em mares de vinho.

Angelinha aquela posta

manjuba de palafréns,

jogando fortes vaivéns

ao vomito estava posta:

com máscara de lagosta

ora arrotava, ora impava;

tomando puxos estava

até que a hora chegou,

não pariu, mas vomitou,

porque tudo então trocava.

A Filha da Mangalaça

de cuxambre tão maldito

indo a parir; o Hermanito

viu que o parto era vinhaça:

chorou tão grande desgraça

a triste da Macotinha,

vendo, que a sua Madrinha

ao botar o tal monstrinho

parira como com vinho,

porém não como convinha.

Anastácia a dos corais,

que fornicando a gandaia

para botar uma saia

mete sete oficiais:

bebeu tanto mais que as mais

borrachas desta folia

que cada qual lhe dizia

que os oficiais chamava

quando uma saia botava,

chamasse, quando bebia.

Brásia, que a meu entender

por bonita, e por galharda

excedia a toda a Parda

em cara, como em beber:

depois de muito comer

bebia com tanto afinco,

que dando às demais um trinco,

constou, que de seis frasqueiras

mui cheias, e muito inteiras

só ela bebera as cinco.

Helena, o cu de borralho,

asmática, porém gorda,

se ensopou como uma torda

na sorda de vinho, e alho:

tiveram grande trabalho

as mais em a levantar,

sem poder-se averiguar,

se era odre, ou se penedo,

e estando neste segredo

ela o veio a vomitar.

A Agueda do Michelo,

que tampouco se recata,

nem merece ser Sapata,

que entre todas é chinelo:

assentada no tinelo

dava aos sorvos tal carreira,

que disse uma companheira,

que a tirassem com presteza,

por não haver em tal mesa

azeitona sapateira.

Tomou a Garça no ar

a Sapata incontinenti,

e indo arreganhar-lhe o dente,

não teve, que arreganhar:

porém por se desquitar

foi-se bailar o cãozinho,

e como sobre o moinho

levou tantas embigadas,

deu em sair às tornadas

a puro vômito o vinho.

Ninguém com Marta Soares

quer trocar odre por odre,

porque de podre, e mais podre

não há distinção de azares:

os copos de vinho a pares

e aos nones a água bebia,

que Deus para ela não cria

água de rios, nem fontes,

e havendo de andar por pontes,

pelas de vinho andaria.

Vem Luzia sacrifício

Juíza de refestela

Agrela, que já não grela,

por ser puta d’abinitio

deu um jantar, que era vício

rodava o Santos licor,

e a negra serva do amor

gritava com saia verde,

aqui-d’El-Rei, que se perde

a roupa de meu Senhor.

Assim pois se embebedaram

a Mestiça, e a Mulata,

todos tomaram a gata,

só as Gatas não tomaram:

bem fizeram, bem andaram

em não irem à função:

porque se me caem na mão,

(como as outras que beberam)

então viram, e souberam

que sou para um gato, um cão.

A Gaguinha celebrada

se afastou desta folia,

dizendo que não queria

com Marinículas nada:

entendida, e engraçada

respondeu, por vida minha,

por saber que não convinha,

que a vinhaça moscatel

graduasse em Bacharel

quem fora sempre Gaguinha.

Inácia, chamada Ilhoa

para cada beiçarrão

não bastava um canjirão

com sopas de pão, e broa:

bebeu vinho de Lisboa,

bebeu do Porto, e Canárias,

e vendo, que em copas várias

outras o bebem do Beja,

disse picada de inveja,

ó Virgem das Candelárias!

A Surda, que gaga é,

escutando estas plegárias

da Virgem das Candelárias,

chamou a de Nazaré:

que licor é este, que

converte esta mulatinha?

bendita seja esta vinha,

que deu tão santo licor,

que para dar-lhe o louvor

se esgotou a ladainha.

Acabado o tal banquete

sem mais, nem mais dilação

foi-se um, e outro putão,

atrás do seu pontalete:

deixaram saia, e traquete,

dentro na casa fechada;

e lá pela madrugada,

veio a negra da Juíza

e não achando a camisa

gritou que estava roubada.

Voto solene fizeram

ouvindo da negra os brados

dizendo foram pecados,

que na festa cometeram:

porque a virgem a quem disseram,

que aquela festa faziam,

lhe ouviram, quando bebiam

dizer a senhora então;

que não se servia, não,

do modo com que serviam.

Elas já em seu juízo

(se de seu juízo têm)

dizem, que o ano que vem

haverá festa de siso:

que hão de olhar seu perjuízo,

sua honra, e opinião;

de putaria, isso não,

mas, eu por certas sequelas

não me ficarei mais nelas

nem na sua devoção.