DESCREVE SEGUNDA VEZ AQUELLAS MUDANÇAS, SATYRISANDO DE CAMINHO AO AZEVEDO FEYTOR...

By Gregório de Matos Guerra

Segunda vez tomo a pena

para tão longe voar,

que sal o sítlo a enforcar

por sentença, que o condena:

a culpa não é pequena

de estar o sítio a pé quedo

suportando o Azevedo,

que anda por este lugar

de contino a fornicar

as negras a puro dedo.

Haverá, Azevedo, alguém

que não raive até morrer

de ver, que queirais vós ter

o gosto, que os homens têm?

e eu raivo mais que ninguém,

pois sois um triste azamel,

que com pica de cordel,

como a não podeis fincar,

quereis o sundo levar

às dedadas como mel.

Eu vos desengano logo,

que isto é só para o varão,

que vê a caça, e ergue o cão,

e de improviso dá fogo:

não é para vós o jogo,

nem para os vossos lanções

pois nunca meteis os bois,

nem tendes bois, que meter,

e se homem sois, ou mulher

não se sabe inda, o que sois.

Se furtais tanto fragmento

de açúcar para as mulheres,

pode ser, se lho não deres,

que tenhais entendimento:

não faleis em casamento,

com que o demo vos atiça,

porque essa Moça castiça

cento, e cinquenta réis lhe achais,

e vós triste não entrais

com cinquenta réis de piça.

Pedis a Moça, que vistes

a fim só de a enganar,

porque o mais, que lhe heis de dar,

serão quatro beijos tristes:

se eu sei, que nunca cumpristes,

que disso Teodora brama,

porque o dedo não derrama,

como é possível querer,

que se contente a mulher,

do que escarnece uma Dama.

Verdade é, que na ocasião

destas comédias passadas

deixou muitas namoradas

vossa representação:

mas a vossa locução

deixou o Povo tão cego,

tão confuso, e sem sossego,

que ninguém sabe atinar

se Português Malavar

sois, se castelhano Grego.

Pois a Moça se tem míngoa

de casar por ser mulher,

como vos há de entender

se não sabe a vossa língua:

deixai, Azevedo, essa íngua

de casar, que é má doença,

e pois Amor vos dispensa,

que mil catingas cheireis,

com branca vos não deiteis,

que heis de morrer de corrença.

Ponde, Azevedo, o cuidado

em ser gente, e não sendeiro,

que o ser home está primeiro,

e depois o ser casado:

se vos não tem dispensado

vossa natureza atroz

para ser home entre nós,

como contra o natural

quereis mulher racional,

sendo vós um catrapós?