DESCREVE SEGUNDA VEZ AQUELLAS MUDANÇAS, SATYRISANDO DE CAMINHO AO AZEVEDO FEYTOR...
Segunda vez tomo a pena
para tão longe voar,
que sal o sítlo a enforcar
por sentença, que o condena:
a culpa não é pequena
de estar o sítio a pé quedo
suportando o Azevedo,
que anda por este lugar
de contino a fornicar
as negras a puro dedo.
Haverá, Azevedo, alguém
que não raive até morrer
de ver, que queirais vós ter
o gosto, que os homens têm?
e eu raivo mais que ninguém,
pois sois um triste azamel,
que com pica de cordel,
como a não podeis fincar,
quereis o sundo levar
às dedadas como mel.
Eu vos desengano logo,
que isto é só para o varão,
que vê a caça, e ergue o cão,
e de improviso dá fogo:
não é para vós o jogo,
nem para os vossos lanções
pois nunca meteis os bois,
nem tendes bois, que meter,
e se homem sois, ou mulher
não se sabe inda, o que sois.
Se furtais tanto fragmento
de açúcar para as mulheres,
pode ser, se lho não deres,
que tenhais entendimento:
não faleis em casamento,
com que o demo vos atiça,
porque essa Moça castiça
cento, e cinquenta réis lhe achais,
e vós triste não entrais
com cinquenta réis de piça.
Pedis a Moça, que vistes
a fim só de a enganar,
porque o mais, que lhe heis de dar,
serão quatro beijos tristes:
se eu sei, que nunca cumpristes,
que disso Teodora brama,
porque o dedo não derrama,
como é possível querer,
que se contente a mulher,
do que escarnece uma Dama.
Verdade é, que na ocasião
destas comédias passadas
deixou muitas namoradas
vossa representação:
mas a vossa locução
deixou o Povo tão cego,
tão confuso, e sem sossego,
que ninguém sabe atinar
se Português Malavar
sois, se castelhano Grego.
Pois a Moça se tem míngoa
de casar por ser mulher,
como vos há de entender
se não sabe a vossa língua:
deixai, Azevedo, essa íngua
de casar, que é má doença,
e pois Amor vos dispensa,
que mil catingas cheireis,
com branca vos não deiteis,
que heis de morrer de corrença.
Ponde, Azevedo, o cuidado
em ser gente, e não sendeiro,
que o ser home está primeiro,
e depois o ser casado:
se vos não tem dispensado
vossa natureza atroz
para ser home entre nós,
como contra o natural
quereis mulher racional,
sendo vós um catrapós?