DESCULPA-SE ESTA DAMA EM CERTA OCCASIÃO QUE TEVE DE CONVERSAR COM O POETA, DEPOI...

By Gregório de Matos Guerra

Graças a Deus, que logrei,

Teresa, uma ocasião

da vossa conversação,

por que tanto suspirei:

e posto que me ausentei

de vós tão desenganado,

pois me enjeitas por casado,

confio em vosso primor,

que há de alcançar-vos Amor

ou casado, ou descasado.

Coração tão inimigo

mostrais ao casado ser,

que às claras venho a entender

que quereis casar comigo:

não se perca um bom amigo

por tão leve impedimento:

casemos, se vos contento,

e segunda vez casado

se me virdes açoutado,

isso mesmo é casamento.

Se a Justiça me açoutar

por casar segunda vez,

açoutado, em que me pes,

vos hei de alegre gozar:

quero as ruas passear

arrastando mil baraços

entre os alcaides madraços,

e o algoz após de mim

antes, que de um serafim

perder os doces abraços.

E se por disciplinante

for tido de toda a gente,

que mau é ser penitente,

para ser santo bribante:

e se o algoz falseante

me puser por mais rigor

alguma marca ao traidor

por duas vezes casado,

dirão, que é vosso estreado

homem de marca maior.

Enfim que de qualquer sorte,

que vós me queirais a mim,

vos hei de dar sempre o sim,

e um sim que dure até a morte:

no maior mal, e mais forte,

ao mais infame desdouro

hei de desprezar o agouro,

porque sendo vós tão grata

sobre ser moça de prata

sois Teresa um pino de ouro.