DESCULPA-SE ESTA DAMA EM CERTA OCCASIÃO QUE TEVE DE CONVERSAR COM O POETA, DEPOI...
Graças a Deus, que logrei,
Teresa, uma ocasião
da vossa conversação,
por que tanto suspirei:
e posto que me ausentei
de vós tão desenganado,
pois me enjeitas por casado,
confio em vosso primor,
que há de alcançar-vos Amor
ou casado, ou descasado.
Coração tão inimigo
mostrais ao casado ser,
que às claras venho a entender
que quereis casar comigo:
não se perca um bom amigo
por tão leve impedimento:
casemos, se vos contento,
e segunda vez casado
se me virdes açoutado,
isso mesmo é casamento.
Se a Justiça me açoutar
por casar segunda vez,
açoutado, em que me pes,
vos hei de alegre gozar:
quero as ruas passear
arrastando mil baraços
entre os alcaides madraços,
e o algoz após de mim
antes, que de um serafim
perder os doces abraços.
E se por disciplinante
for tido de toda a gente,
que mau é ser penitente,
para ser santo bribante:
e se o algoz falseante
me puser por mais rigor
alguma marca ao traidor
por duas vezes casado,
dirão, que é vosso estreado
homem de marca maior.
Enfim que de qualquer sorte,
que vós me queirais a mim,
vos hei de dar sempre o sim,
e um sim que dure até a morte:
no maior mal, e mais forte,
ao mais infame desdouro
hei de desprezar o agouro,
porque sendo vós tão grata
sobre ser moça de prata
sois Teresa um pino de ouro.