DESCULPANDO-SE O AUTOR DE NÃO IR A UNS ANOS

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, com honra do dia,

Esforçando a mão pesada,

Tomo a lira, há longo tempo

Ao silêncio consagrada;

E enquanto lhe alimpo as cordas,

Que bolor aos dedos dão,

E atarantadas aranhas

Despejando o beco vão;

C’os olhos ao ar alçados

A minha musa pedia

Me desse sonoros versos,

Dignos de Apolo, e do dia;

Que me ensinasse a louvar

O ditoso nascimento,

Que ao vosso brilhante sexo

Trouxe mais um ornamento;

Que pintasse a loura Vênus

Vosso rosto bafejando;

Que me mostrasse as três Graças

O rico berço embalando;

Que me ensinasse a cantar,

Cingida a testa de loiro,

Uns claros, triunfantes olhos,

Uns tinos cabelos de oiro;

Que me fizesse augurar,

Rasgando ao futuro o véu,

Amor consagrando as seitas

Nos altares de Himeneu;

Mas as musas, como as ninfas,

Tem paia mim os pés mancos;

Fogem de trêmulas vozes.

Tremem de cabelos brancos:

Fiquei, pois, desamparado;

E merecendo desculpa,

De não vos mandar bons versos,

Peço perdão, sem ler culpa;

Sei que devia ir pedi-lo

Respeitoso e diligente;

Mas impede-me essa honra

Um defluxo impertinente;

E quem em casa traz botas,

E vinte xaropes bebe;

E, quando sai, sai metido

Numa loja d’algibebe.

Se fosse em tempo invernoso

Entrar na ilustre assembleia

Com leve, inglesa casaca,

Fina, transparente meia;

Sem acabar comprimentos,

Logo o corpo arrepiado,

Gelada a voz sobre os beiços.

Cairia constipado;

E o Marcos, largando os bules,

Pondo o velho em quentes panos,

Entre os aplausos dos vossos

Praguejaria os meus anos:

Vossa bondade não quer

Pôr o cortesão em risco,

De ir com habito de Cristo,

E vir no de São Francisco:

Aceitai d’aí meus votos;

Daqui a mão vos beijei;

E dos doces que não como,

Domingo me vingarei;

Darei escumantes copos

Ao perum e aos molhos seus;

Brindarei os vossos anos.

Tratando mui bem dos meus.