DESEMPULHA-SE O POETA DEPOIS DE GOZAR ESTA DAMA DE HUNS ÇAPATOS QUE LHE PEDIO.

By Gregório de Matos Guerra

Um cruzado pede o homem,

Anica, pelos sapatos,

mas eu ponho isso à viola

na postura do cruzado:

Diz, que são de sete pontos,

mas como eu tanjo rasgado,

nem nesses pontos me meto,

nem me tiro desses trastos.

Inda assim se eu não soubera

o como tens trastejado

na banza dos meus sentidos

pondo-me a viola em cacos:

Ó cruzado pagaria,

já que fui tão desgraçado,

que buli co’a escaravelha,

e toquei sobre o buraco.

Porém como já conheço,

que o teu instrumento é baixo,

e são tão falsas as cordas,

que quebram a cada passo:

Não te rasgo, nem ponteio,

não te ato, nem desato,

que pelo tom, que me tanges,

pelo mesmo tom te danço.

Busca a outros temperilhos,

que eu já estou destemperado,

estou para me rasgar

minhas cousas cachimbando.

Se tens o cruzado, Anica,

manda tirar os sapatos,

e se não, lembre-te o tempo,

que andaste de pé rapado.

E andarás mais bem segura,

que isto de pisar em saltos

é susto para quem pisa,

e ao que paga, é sobressalto.

Quem te curte o cordovão,

por que te não dá sapatos?

mas eu, que te rôo o osso,

é que hei de pagar o pato?

Que diria, quem te visse

no meu dinheiro pisando?

diria, que quem to deu.

ou era bosta, ou cavalo.

Pois porque não digam isso,

leve-me a mim São Fernando,

se os der, e se tu os calçares

leve-te logo o diabo.

Demais, que estou de caminho,

e seria mui grande asno,

estar para dar à sola,

e a ti deixar-te os sapatos.

Agora se eu cá tornar,

trarei peles de veado,

para dar-te umas chinelas

duráveis, que é mais barato.

Fica-te na paz de Deus,

saüdades até quando;

vem-te despedir de mim,

porque de hoje a oito parto.