DESENGANADO O POETA AO EFFEYTOAREMSE AQUELLAS VODAS COM HUM MOÇO LICENCIADO SAHIO RAYVOSAMENTE COM ESTA SATYRA.

By Gregório de Matos Guerra

Casai-vos, Brites, embora,

mas adverti, que em solteira

se até aqui fostes rendeira,

sereis costureira agora:

heis de coser cada hora,

para enganar o esposado,

esse berbigão rasgado:

saiba o Moço de corrida,

que andais por ele cozida,

quando ele por vós assado.

Se por douto se vos vende,

bem sabe a filosofia,

mas tão pouca astrologia,

que, o que é virgo, não entende:

e se na esfera pertende

lançar linhas sem medida,

ignorância é conhecida,

pois a saber as da esfera,

logo as linhas conhecera,

com que vos estais cosida.

Pontos em cousa surrada

fazem o feitio caro:

melhor é falar-lhe claro,

e dizer, que estais usada:

não entenda o Noivo nada

dos usos, que há em direito,

que eu, que lhe tenho algum jeito,

sei, que a vossa honrinha falsa,

posto que um ponto só calça,

grande entrada tem no peito.

O que me tem mais confuso,

é, que casar-vos temais,

porque tão usada estais,

sendo a gala andar ao uso:

se o Noivo está já obtuso

na regra de musa musa,

como há de tomar a escusa,

de casar com Noiva honrada,

por se dizer ser usada,

se o que se usa, não se escusa.

Animai-vos, Brites, pois,

tomai de casada o estado,

servireis de guardar gado,

pois sabeis o nome aos bois:

e se o Noivo lá depois

vos der no rasto da linha,

direis chorosa, e mesquinha

(culpando o poder do Arnor)

não é culpa do pastor

meterem-lhe os bois na vinha.

Quem fez ao Noivo capaz

de vos tocar na desonra,

quando vós em pontos d’honra

excedeis ao Noivo assaz?

não é ele tão audaz,

que fale no vosso vício,

pois lhe fazeis benefício

casando, que sois na empresa

honrada por natureza

não só, mas por artifício.

Quereis (fora vá de pulha)

por dar à vida descarga,

que numa barra tão larga

entre o Noivo pela agulha?

vós mesma fazeis a bulha,

pois dais com essa cautela

sinais da vossa mazela;

agulha se há de escusar,

que para essa foz entrar,

o que importa, é pôr a vela.

Muito ao Noivo lhe convinha,

que vós por me dar o jeito

entupísseis bem o estreito,

para que ele passe a linha:

e se a hora for mesquinha,

que antes da linha passada

ache calma, ou trovoada,

com que se esgote o refresco,

vós fareis, com ele o fresco,

para seguir a jornada.

Casai-vos, bebei o trago,

que estou já frito, e assado

por ver o Licenciado

alagado nesse lago

sempre me destes mau pago

ao bem, que sempre vos quis,

e agora estou por um triz

de bem vingado me ver,

se vos quer, ou não vos quer

o Sô Licenciado Ortis.

Ele virá no partido,

porque verá como honrado,

que qualquer virgo ensopado

não tem mais do que cozido:

ele é da terra o Cupido,

o Narciso, e o Nanaço,

e não sirva de embaraço

não ir para a nova casa,

cabaço, que se ele casa,

eu jurarei, que é cabaço.