DESENGANO DE NEREU, LUNDU

By José Joaquim Correia de Almeida

Nereu em vão te cansas,

Bofé tu não alcanças

Almia, tão louçã.

Ela tem compromisso,

Que não quebra, e por isso,

Sem desdenhar teu cântico sublime,

De teu amor se exime,

E isto vai de acordo com mamã.

Almia não concede

O que Nereu lhe pede,

Porque já não é seu.

O galante Aniceto

Roubou-lhe todo o afeto,

De modo que esperança já não reste

Àquele que a requeste,

Seja embora cantor como Nereu.

Almia é mui constante

Ao simpático amante,

Ou por terra ou por mar.

Por capricho ou virtude,

Ela a dous não ilude,

E, olhando para outro qualquer moço,

Enjoa até do almoço,

Até perde a vontade de jantar.

Nos terços e na missa

É quando se lhe atiça

O fervor da oração.

Se em súplica se abrasa

É porque não se casa

O Aniceto com ela pelo entrudo,

E, sendo ele o seu tudo,

Na igreja faz papel do tentação.

Indo Almia ao passeio

Não goza de recreio,

Se algures o não vê.

Então nada lhe agrada,

Ou antes mais a enfada

O que lhe cairia bem no goto,

Se Aniceto maroto

Não fosse para ela o não-sei-quê.

Nas quadrilhas do baile

Envolta no seu xaile

A todos faz chinfrim.

Cheirando um cravo roxo

Responde com muxoxo,

Se o cortês cavalheiro vai tirá-la,

E no meio da sala

O deixa assim com cara de Joaquim.

Em noite silenciosa,

Em noite ruidosa

Está sempre a cismar.

Teme seja ilusório

De Aniceto o casório,

Faz o sinal da cruz contra o demônio,

E aos pés de Santo Antônio

Vai os seus dous vinténs depositar.

O tal Nereu desista

Da arriscada conquista

De Almia pertinaz

Não faltarão donzelas

Tão mimosas, tão belas;

Porque o mundo é espaçoso, e são bonitas

As Perpétuas e as Ritas,

Conforme bem nos prega frei Tomás.