DESENGANO DE NEREU, LUNDU
Nereu em vão te cansas,
Bofé tu não alcanças
Almia, tão louçã.
Ela tem compromisso,
Que não quebra, e por isso,
Sem desdenhar teu cântico sublime,
De teu amor se exime,
E isto vai de acordo com mamã.
Almia não concede
O que Nereu lhe pede,
Porque já não é seu.
O galante Aniceto
Roubou-lhe todo o afeto,
De modo que esperança já não reste
Àquele que a requeste,
Seja embora cantor como Nereu.
Almia é mui constante
Ao simpático amante,
Ou por terra ou por mar.
Por capricho ou virtude,
Ela a dous não ilude,
E, olhando para outro qualquer moço,
Enjoa até do almoço,
Até perde a vontade de jantar.
Nos terços e na missa
É quando se lhe atiça
O fervor da oração.
Se em súplica se abrasa
É porque não se casa
O Aniceto com ela pelo entrudo,
E, sendo ele o seu tudo,
Na igreja faz papel do tentação.
Indo Almia ao passeio
Não goza de recreio,
Se algures o não vê.
Então nada lhe agrada,
Ou antes mais a enfada
O que lhe cairia bem no goto,
Se Aniceto maroto
Não fosse para ela o não-sei-quê.
Nas quadrilhas do baile
Envolta no seu xaile
A todos faz chinfrim.
Cheirando um cravo roxo
Responde com muxoxo,
Se o cortês cavalheiro vai tirá-la,
E no meio da sala
O deixa assim com cara de Joaquim.
Em noite silenciosa,
Em noite ruidosa
Está sempre a cismar.
Teme seja ilusório
De Aniceto o casório,
Faz o sinal da cruz contra o demônio,
E aos pés de Santo Antônio
Vai os seus dous vinténs depositar.
O tal Nereu desista
Da arriscada conquista
De Almia pertinaz
Não faltarão donzelas
Tão mimosas, tão belas;
Porque o mundo é espaçoso, e são bonitas
As Perpétuas e as Ritas,
Conforme bem nos prega frei Tomás.