Desmoronamento

By João da Cruz e Sousa

Dentro do coração, no côncavo do peito

Choro a grande ilusão do amor, desfalecida,

Dentre o gozo feliz, nostálgico da vida;

Já exangue, afinal, já morto, já desfeito.

Por visões que adorei num vago tempo incerto

Não sei por que razão avivo agora as mágoas,

Num pranto doloroso e triste, como as águas

Do mar grosso a bater sobre o costão deserto.

Tu, ó doce visão de perfumosas tranças,

Todo o meu puro e terno sentimento invades

E eu não sei o que fiz das minhas esperanças

Que de longe que vão parecem mais saudades.

Tudo o que houve em meu ser de compaixão e crença

Para sempre secou, secou já como um rio;

Para sempre também subi ao escombro frio

Da dúvida mortal, avassalante, imensa.

Para sempre me achei sem bússola e sem rumo

No fundo de regiões estranhas e afastadas...

As almas que eu amei, vi mudas e apagadas,

Vi tudo se sumir numa espiral de fumo.

Bem depressa fiquei como um ermo remoto

Como torvo areal sem plantas e sem fontes,

Donde apenas se vê rasgar a terra o broto

Do cardo retorcido e áspero dos montes.

Muitas vezes, porém, como entre os arvoredos

Onde juntas, no val, todas as aves cantam

No meio do rumor, de sombras e segredos,

Sinto dentro de mim que uns sonhos se levantam.

Borboleteio, a rir, por entre os sons e as flores,

Como um pássaro azul de uma plumagem linda

E canto alegremente a canção dos amores,

Que este peito viril sabe cantar ainda.

Lembro então corações que já me abandonaram,

Que eu senti palpitar, por sobre o meu pulsando,

Que vão hoje através das afeições chorando,

Que sofreram comigo e que comigo amaram.

Entretanto a minh’alma em voo largo e ufano,

De repente triunfal, de súbito gloriosa,

Tem a pompa de sol, vermelha e luminosa,

Da púrpura esvoaçante e aberta de um romano.

E esse fulgor, que vem dos meus sonhos dispersos

Na névoa do passado, errantes e dolentes;

Dá-me árdidos corcéis fogosos e frementes

Para atrelar, jungir ao carro destes versos.

Claramente recordo e penso nas estradas

Que percorri, que andei às ilusões, sozinho,

Vendo que todo o amor das virginais amadas,

Tinha a mesma fatal embriaguez do vinho.

Quantos entes febris, que o amor embriaga e ofusca

Assim, durante a vida, ansiosamente exaustos,

Não encontram, talvez, dessas visões em busca,

As Margaridas vãs dos ilusórios Faustos!