DESPEDIDO O POETA DE SUA SENHORA, E POSTO COM EFEITO NA CIDADE, LHE ENCARECE DESDE ELA OS RIGOROSOS TORMENTOS DE AMOR, QUE PADECE CAUSADOS DE SAUDADE PELA AUSÊNCIA DA SUA VISTA, NESTAS TÃO CHOROSAS, QUÃO SAUDOSAS DÉCIMAS.
Saudades, que me quereis,
que tanto me atormentais?
nunca a morte executais,
sempre a morte prometeis?
sem dúvida pretendeis
minha pena ir dilatando,
porque enquanto vou penando
tendes, onde estar vivendo,
e se acaso eu for morrendo,
por força ireis acabando.
Mas nem por isso a meu ver
matais menos sem matar,
que um contino suspirar
é um perpétuo morrer:
o bem na lembrança ter,
considerá-lo distante,
um receio a cada instante,
um susto a cada acidente
não são provas do vivente,
senão abonos do amante.
Vós sois, tirana saudade,
sendo a memória instrumento
verdugo do entendimento,
e flagelo da vontade:
acabo na realidade,
respiro nas aparências,
pois com tantas evidências
vosso rigor me desalma,
não despojado de uma alma,
afligido em três potências.
Oh quanto menor tormento
me deva o perder a vida,
que para dor tão crescida
já não há mais sofrimento:
a pena com tanto alento,
sem alento o coração
parecerá sem razão,
que uma mesma causa ordene,
que viva, para que pene,
e para ter vida não.