DESPEDIDO O POETA DE SUA SENHORA, E POSTO COM EFEITO NA CIDADE, LHE ENCARECE DESDE ELA OS RIGOROSOS TORMENTOS DE AMOR, QUE PADECE CAUSADOS DE SAUDADE PELA AUSÊNCIA DA SUA VISTA, NESTAS TÃO CHOROSAS, QUÃO SAUDOSAS DÉCIMAS.

By Gregório de Matos Guerra

Saudades, que me quereis,

que tanto me atormentais?

nunca a morte executais,

sempre a morte prometeis?

sem dúvida pretendeis

minha pena ir dilatando,

porque enquanto vou penando

tendes, onde estar vivendo,

e se acaso eu for morrendo,

por força ireis acabando.

Mas nem por isso a meu ver

matais menos sem matar,

que um contino suspirar

é um perpétuo morrer:

o bem na lembrança ter,

considerá-lo distante,

um receio a cada instante,

um susto a cada acidente

não são provas do vivente,

senão abonos do amante.

Vós sois, tirana saudade,

sendo a memória instrumento

verdugo do entendimento,

e flagelo da vontade:

acabo na realidade,

respiro nas aparências,

pois com tantas evidências

vosso rigor me desalma,

não despojado de uma alma,

afligido em três potências.

Oh quanto menor tormento

me deva o perder a vida,

que para dor tão crescida

já não há mais sofrimento:

a pena com tanto alento,

sem alento o coração

parecerá sem razão,

que uma mesma causa ordene,

que viva, para que pene,

e para ter vida não.