DESTA ENFERMIDADE PASSOU CATONA A CURAR-SE NA VILA DE SAM FRANCISCO, ONDE O POET...

By Gregório de Matos Guerra

É chegada a Catona,

e vem muito doente,

que se há gostos, que matem,

havê-los-á, que enfermem.

Se enferma de seus gostos,

gosta, do que padece,

e assim ninguém a cure,

que, quem a cura, a ofende.

Da gente desta casa

ninguém há, que penetre,

se ele apertou com ela,

se ela apertou com ele.

O que se sabe ao certo,

é, que se ela adoece

daquilo de que vive,

livre está de morrer-se.

É ditosa Catona,

que quanto mais padece,

mais assegura a vida,

pois vive, do que geme.

Para se não enferma,

contra mim adoece,

se morre por deixar-me,

hei medo, que me deixe.

Na sua enfermidade

logra dous interesses,

o gosto de enfermar-se,

e o prazer de morrer-me

Se a curo então a ofendo,

pois lhe tiro os prazeres:

se a não curo, me mato,

valha-me Deus, mil vezes.

Que nesta confusão,

em que o fado me mete,

ou se cure, ou não cure,

hei medo, que me enterre.