DESTAS ZOMBARIAS COM QUE O POETA COMEÇOU A GALANTEAR A ESTA DAMA EM DESPIQUE DE ...

By Gregório de Matos Guerra

Tetê sempre desabrida

mostra um dia entranhas gratas,

pois sabem todos, que matas,

saibam que podes dar vida:

sendo tu minha homicida,

com morte tão desumana

dás a entender, que és humana;

porém se a vida me dás,

então, Tetê, mostrarás,

que és divina, e soberana.

O dar morte é de mulheres

propensas a crueldades,

dar vida é de divindades,

com soberanos poderes:

dando-me tu desprazeres,

a morte, a dor, e o pesar

hás de ficar com desar,

de que em ti tais males caibam,

e te está melhor, que saibam,

que tens mil vidas, que dar.

Deixai-me viver não mais,

que por vossa, e minha glória,

vós tereis nossa vanglória,

e eu folgarei, que a tenhais:

e se a vida me não dais,

porque enfada, quem adora,

não temais, minha Senhora,

que eu sei da vossa profia,

que dando-me cada dia,

ma tirareis cada hora!

Vida, que tão pouco dura,

liberalmente se dá,

vosso enfado a tirará,

se a de vossa formosura:

e porque fique segura

morte tão apetecida,

dai-ma vós tão escondida,

que eu a não sinta chegar,

porque o gosto de acabar

não me torne a dar a vida.