DESTAS ZOMBARIAS COM QUE O POETA COMEÇOU A GALANTEAR A ESTA DAMA EM DESPIQUE DE ...
Tetê sempre desabrida
mostra um dia entranhas gratas,
pois sabem todos, que matas,
saibam que podes dar vida:
sendo tu minha homicida,
com morte tão desumana
dás a entender, que és humana;
porém se a vida me dás,
então, Tetê, mostrarás,
que és divina, e soberana.
O dar morte é de mulheres
propensas a crueldades,
dar vida é de divindades,
com soberanos poderes:
dando-me tu desprazeres,
a morte, a dor, e o pesar
hás de ficar com desar,
de que em ti tais males caibam,
e te está melhor, que saibam,
que tens mil vidas, que dar.
Deixai-me viver não mais,
que por vossa, e minha glória,
vós tereis nossa vanglória,
e eu folgarei, que a tenhais:
e se a vida me não dais,
porque enfada, quem adora,
não temais, minha Senhora,
que eu sei da vossa profia,
que dando-me cada dia,
ma tirareis cada hora!
Vida, que tão pouco dura,
liberalmente se dá,
vosso enfado a tirará,
se a de vossa formosura:
e porque fique segura
morte tão apetecida,
dai-ma vós tão escondida,
que eu a não sinta chegar,
porque o gosto de acabar
não me torne a dar a vida.