DESTAS ZOMBARIAS COM QUE O POETA COMEÇOU A GALANTEAR A ESTA DAMA EM DESPIQUE DE SUA IRMÃA, SE PRESUMEM AGORA AMOROSAS VERAS NESTA OBRA.
Tetê sempre desabrida
mostra um dia entranhas gratas,
pois sabem todos, que matas,
saibam que podes dar vida:
sendo tu minha homicida,
com morte tão desumana
dás a entender, que és humana;
porém se a vida me dás,
então, Tetê, mostrarás,
que és divina, e soberana.
O dar morte é de mulheres
propensas a crueldades,
dar vida é de divindades,
com soberanos poderes:
dando-me tu desprazeres,
a morte, a dor, e o pesar
hás de ficar com desar,
de que em ti tais males caibam,
e te está melhor, que saibam,
que tens mil vidas, que dar.
Deixai-me viver não mais,
que por vossa, e minha glória,
vós tereis nossa vanglória,
e eu folgarei, que a tenhais:
e se a vida me não dais,
porque enfada, quem adora,
não temais, minha Senhora,
que eu sei da vossa profia,
que dando-me cada dia,
ma tirareis cada hora!
Vida, que tão pouco dura,
liberalmente se dá,
vosso enfado a tirará,
se a de vossa formosura:
e porque fique segura
morte tão apetecida,
dai-ma vós tão escondida,
que eu a não sinta chegar,
porque o gosto de acabar
não me torne a dar a vida.