DEUS

By José Joaquim Correia de Almeida

Se atento eu reparo nas pétalas finas

das flores que adornam viçosas campinas,

o esmero das tintas me fala de Deus.

Se escuto enlevado suaves arpejos,

que n’alma refinam celestes desejos,

a doce harmonia me fala de Deus.

Se após a fadiga por vales e montes,

licor me oferecem as límpidas fontes,

o puro refresco me fala de Deus.

Se os olhos me encanta formosa donzela,

que quanto mais cândida é tanto mais bela,

gentil criatura me fala de Deus.

Se as nuvens despedem trovões que rebramam,

e vozes etéreas o imenso proclamam,

a grã tempestade me fala de Deus.

Se a peste, se a fome, se as iras da guerra

devastam, enlutam mil povos na terra,

exemplo ou castigo me fala de Deus.

Se de ouro e de sedas o rico se cobre,

e o frio traspassa farrapos do pobre,

a vida futura me fala de Deus.

Se o justo padece contínuos abalos,

enquanto o malvado não perde regalos,

balança de Arcanjo me fala de Deus.