DEYXARAM ESTAS DAMAS DE IR A FESTA DA CRUZ POR FALTA DE REDE E O POETA SE MOSTRA...

By Gregório de Matos Guerra

Quis ir à festa da Cruz

Inácia, e faltou-lhe a rede,

com que foi força ficar

Paredes sobre paredes.

Outros dizem, que uma amiga

lhe pedira o manto adrede

pela ter emparedada

todo o dia, em que lhe pese.

Não sei a verdade disto,

sei, que eu paguei a patente,

tendo um dia de trabalho,

porque de festa lho desse.

A saber, que estava em casa,

visitara-a como sempre,

e fizera, o que costumam

casados in facie eclesiae.

Fora-me pôr à janela,

porque o calor me refresque,

falara cos Guapas sujas,

que são limpas guapamente.

Mariana se agastara,

que tudo escuta, e atende,

por isso diz o adágio

“manso, que ouvem as paredes.”

Sabendo deste ciúme

foram os Guapas contentes

que inda que mulheres feias,

são feias, porém mulheres.

Inácia se sossegava,

que é moça mansa, e alegre,

e com dous dedos se põem

sendo Inácia, uma clemente.

Da sua amiga me queixo,

que cão d’horta me parece,

pois em todo o dia não

comeu, nem deixou comer-me.

Com Inácia já não quero

lançar mais barro à parede,

que de mui seca receio,

que ali meu barro não pegue.

Uma Mãe com duas Filhas

na verdade é pouca gente,

para que eu possa cantar

preso entre quatro paredes.

Três só não fazem prisão,

porque um triângulo breve,

que um signo salmão figura,

mais enfeitiça, que prende.

Mas a parede de Inácia

com ser uma tão-somente

como é tão forte, e tão rija,

bastou só para prender-me.

Perdi o ganho esta tarde,

e cuido, que para sempre;

quem ma pegou uma vez,

não quero, que outra me pegue.

Da Santa Cruz era a festa,

e a maldita da Paredes

com cruz, e sem cruz receio

me faça calvários sempre.

Eu perdi Moça, que agrada,

ela velho, que aconselhe,

ambos ficamos perdidos,

quem o vê o remedeie.