Diálogo no lar
— Para o nosso filho que vem de nascer,
Mostra-me a camisa que fizeste, Amada.
— Ei-la; — é rosa e azul, toda perfumada,
E eu pedi à aurora para ma fazer.
— Para a cabecinha desse nosso filho
Quem faria, Amada, a pequenina touca?
— Fê-la, meu querido, o sacrossanto brilho
Das lhamas dos beijos da minha alma louca.
— Para esse pimpolho que, daqui a um ano,
Andará nas praias, quais os sapatinhos?
— Ora, que pergunta! Pois serão de pano?!
Dar-mos-á a pluma dos cheirosos ninhos.
— A esse que, sorrindo, veio ver o mundo,
Que berço daremos, para o embalançar?
— Dar-lhe-emos a asa de um amor profundo,
Vasto como o espaço, e como o verde mar.
— Para esse cordeiro que estes nossos olhos
Hão de apascentar, que aprisco daremos?
— Dar-lhe-emos um, entre os cheirosos molhos
Das tulipas virgens, que nos sonhos vemos.
— E esses seus lençóis onde foram urdidos,
Eles, defumados à alfazema e à malva?
— Nos áureos teares, só por nós conhecidos,
E quem os urdiu foi a Estrela-d’alva.
— Com que banharemos o nosso filhinho
Que nos trouxe à alma o clarão do dia?
— Com perfumes doces, do mais claro vinho
Dos vinhedos de ouro da nossa alegria.
— Como todo filho de gente ricaça,
Quem pudesse vê-lo com guizos na mão.
— Ora, não precisa: para nos dar graça,
Basta que chocalhe com meu coração.
— A Virgem Senhora, que do Altar te escuta,
Que o destine ao Bem, que lhe dê bom fado.
— Que lhe dê uma alma límpida, impoluta,
E lhe dê dos sonhos todo o sol dourado.
— A Virgem Senhora, Flâmula da Glória,
Que lhe dê no mundo o mais feliz destino.
— Que lhe torne a vida eternamente flórea;
E o seu peito um cálice de licor divino.
— Que lhe guie os passos neste mundo insano,
Onde se renega a própria luz do Amor.
— Que lhe dê na vida um coração em flor,
Sem os ventos frios do fatal engano.
— Ana, que olhos tristes os do nosso filho!
Vejo-lhe nos olhos uma grande mágoa...
— São iguais aos teus, que através de um brilho
Vago... muito vago... vivem rasos de água.