Diálogo no lar

By Juvêncio de Araújo Figueredo

— Para o nosso filho que vem de nascer,

Mostra-me a camisa que fizeste, Amada.

— Ei-la; — é rosa e azul, toda perfumada,

E eu pedi à aurora para ma fazer.

— Para a cabecinha desse nosso filho

Quem faria, Amada, a pequenina touca?

— Fê-la, meu querido, o sacrossanto brilho

Das lhamas dos beijos da minha alma louca.

— Para esse pimpolho que, daqui a um ano,

Andará nas praias, quais os sapatinhos?

— Ora, que pergunta! Pois serão de pano?!

Dar-mos-á a pluma dos cheirosos ninhos.

— A esse que, sorrindo, veio ver o mundo,

Que berço daremos, para o embalançar?

— Dar-lhe-emos a asa de um amor profundo,

Vasto como o espaço, e como o verde mar.

— Para esse cordeiro que estes nossos olhos

Hão de apascentar, que aprisco daremos?

— Dar-lhe-emos um, entre os cheirosos molhos

Das tulipas virgens, que nos sonhos vemos.

— E esses seus lençóis onde foram urdidos,

Eles, defumados à alfazema e à malva?

— Nos áureos teares, só por nós conhecidos,

E quem os urdiu foi a Estrela-d’alva.

— Com que banharemos o nosso filhinho

Que nos trouxe à alma o clarão do dia?

— Com perfumes doces, do mais claro vinho

Dos vinhedos de ouro da nossa alegria.

— Como todo filho de gente ricaça,

Quem pudesse vê-lo com guizos na mão.

— Ora, não precisa: para nos dar graça,

Basta que chocalhe com meu coração.

— A Virgem Senhora, que do Altar te escuta,

Que o destine ao Bem, que lhe dê bom fado.

— Que lhe dê uma alma límpida, impoluta,

E lhe dê dos sonhos todo o sol dourado.

— A Virgem Senhora, Flâmula da Glória,

Que lhe dê no mundo o mais feliz destino.

— Que lhe torne a vida eternamente flórea;

E o seu peito um cálice de licor divino.

— Que lhe guie os passos neste mundo insano,

Onde se renega a própria luz do Amor.

— Que lhe dê na vida um coração em flor,

Sem os ventos frios do fatal engano.

— Ana, que olhos tristes os do nosso filho!

Vejo-lhe nos olhos uma grande mágoa...

— São iguais aos teus, que através de um brilho

Vago... muito vago... vivem rasos de água.