Diálogo triste

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Ouve, Senhora,

O que eu ouvi lá fora,

No caminho brusco, pedregoso trilho,

Da boca de um cego ao seu pequeno filho.

E o que este lhe dizia.

Senhora,

Dir-me-ás, depois,

Se escutaste, um dia,

Um diálogo

Análogo

Ao desses dois,

Sendo a um roubada toda a luz dos olhos,

E dados ao outro os mais cruéis escolhos...

Diálogo triste.

O cego:

— De que cor é o sol, ó meu filhinho amigo,

O sol dos espaços?

O filho:

— É da cor do trigo

Quando sazonado,

E à mó levado,

Pelo qual a gente morre de cansaços,

Numa eterna lida,

Nesta acerba vida.

O cego:

— E eu nunca pude lavorar o trigo;

Tenho de comê-lo vindo de outra mão!

Não há dor mais funda para um coração,

Não há dor mais funda, não há dor mais triste,

Só na alma dum cego enormemente existe!

O filho, à parte:

— Chora a alma humana, quando encarcerada

Numa casa velha, sem janela aberta...

O cego:

— De que cor é a lua que no céu desperta,

Que do céu espia?

De que cor é a lua?

O filho:

— É da cor da pura, branca eucaristia;

Dir-se-ia a hóstia... E pelo azul flutua,

Vive a flutuar.

Tendo por Altar

A montanha verde onde eu vou brincar...

O cego, em êxtase:

— Se é da cor da hóstia, que beleza, a lua!

E, por certo, a terra é o seu florido Altar,

Pois não há quem negue que Jesus encerra

A sua alma em lótus a florir da terra.

O filho:

— Ai! pobres dos homens se Jesus não fosse

Para as suas almas um clarão tão doce.

O cego:

— De que cor é o lírio que perfuma a toalha

Da capela branca da Nossa Senhora,

Dessa Mãe sublime que nos agasalha

Como a luz da aurora?

O filho:

— É da cor das almas dessas criancinhas

Que o seu Filho adora como as ovelhinhas.

O cego:

— Ao rebanho santo dessas ovelhinhas

Que Jesus te chame com saudosa avena,

E te queira, ó filho, no seu grande Aprisco,

Onde nunca, nunca te verás em risco,

Antes de alma aberta como uma açucena.

O filho:

— Que a tua alma veja eu pastoreando assim.

O cego:

— De que cor é o céu, dize-me, criança.

O filho:

— É da cor mais linda do Arco da Aliança

Que jamais tem fim;

Desse para onde as nossas ânsias vão,

Para onde vão as aflitivas ânsias,

Asas a bater...

O cego:

— Mas as minhas, filho, hão de se perder

Sem consolação,

Por essas distâncias...

O filho:

— Não te lembres disso, ó meu querido pai;

Não se perde a areia quanto mais o ai...

O cego:

— De que cor é a vaga, quando está dormindo

Ao sopé da terra? Dize, meu amor.

O filho:

— É da linda cor

Que lhe empresta a terra, sol a sol tão lindo;

É da cor da esperança...

Mas, do mar, às vezes, num cruel momento,

Essa cor se perde...

O cego:

— Ah! nem sempre é verde?!

O filho:

— Nem sempre é verde, se a fustiga o vento.

O cego:

— Dessa forma, filho, no meu pensamento,

Muda a cor a esperança...

(ouvindo o filho chorar)

— És ainda criança,

E já sofres tanto por sofrer me veres,

Quanto mais se um dia, quando eu morrer, souberes

Que não tive graças para t’as deixar...

Choras, filho amado? Para que chorar...

O filho:

— Deixa que eu no pranto lave as minhas mágoas...

Desde pequenino dentro da alma trago-as.

O cego, acariciando o filho:

— E essa noite fria, cheia de neblinas,

Sem a luz dos astros, sem a luz do luar,

Toda amortalhada de mortalhas finas;

Dessa noite fria, amargurada noite,

Dize, meu filhinho, se eu conheço a cor...

O filho:

— É da cor profunda das melancolias

Da alma que soluça, vive a soluçar,

Como se ela fosse um revoltoso mar,

Pelas invernias,

De um vento medonho no terrível açoite,

Que estremece os próprios escarcéus e abrolhos...

O cego:

— Já eu sei, meu filho, de que cor é a noite,

Pois a tenho dentro dos meus pobres olhos.