Diálogo triste
Ouve, Senhora,
O que eu ouvi lá fora,
No caminho brusco, pedregoso trilho,
Da boca de um cego ao seu pequeno filho.
E o que este lhe dizia.
Senhora,
Dir-me-ás, depois,
Se escutaste, um dia,
Um diálogo
Análogo
Ao desses dois,
Sendo a um roubada toda a luz dos olhos,
E dados ao outro os mais cruéis escolhos...
Diálogo triste.
O cego:
— De que cor é o sol, ó meu filhinho amigo,
O sol dos espaços?
O filho:
— É da cor do trigo
Quando sazonado,
E à mó levado,
Pelo qual a gente morre de cansaços,
Numa eterna lida,
Nesta acerba vida.
O cego:
— E eu nunca pude lavorar o trigo;
Tenho de comê-lo vindo de outra mão!
Não há dor mais funda para um coração,
Não há dor mais funda, não há dor mais triste,
Só na alma dum cego enormemente existe!
O filho, à parte:
— Chora a alma humana, quando encarcerada
Numa casa velha, sem janela aberta...
O cego:
— De que cor é a lua que no céu desperta,
Que do céu espia?
De que cor é a lua?
O filho:
— É da cor da pura, branca eucaristia;
Dir-se-ia a hóstia... E pelo azul flutua,
Vive a flutuar.
Tendo por Altar
A montanha verde onde eu vou brincar...
O cego, em êxtase:
— Se é da cor da hóstia, que beleza, a lua!
E, por certo, a terra é o seu florido Altar,
Pois não há quem negue que Jesus encerra
A sua alma em lótus a florir da terra.
O filho:
— Ai! pobres dos homens se Jesus não fosse
Para as suas almas um clarão tão doce.
O cego:
— De que cor é o lírio que perfuma a toalha
Da capela branca da Nossa Senhora,
Dessa Mãe sublime que nos agasalha
Como a luz da aurora?
O filho:
— É da cor das almas dessas criancinhas
Que o seu Filho adora como as ovelhinhas.
O cego:
— Ao rebanho santo dessas ovelhinhas
Que Jesus te chame com saudosa avena,
E te queira, ó filho, no seu grande Aprisco,
Onde nunca, nunca te verás em risco,
Antes de alma aberta como uma açucena.
O filho:
— Que a tua alma veja eu pastoreando assim.
O cego:
— De que cor é o céu, dize-me, criança.
O filho:
— É da cor mais linda do Arco da Aliança
Que jamais tem fim;
Desse para onde as nossas ânsias vão,
Para onde vão as aflitivas ânsias,
Asas a bater...
O cego:
— Mas as minhas, filho, hão de se perder
Sem consolação,
Por essas distâncias...
O filho:
— Não te lembres disso, ó meu querido pai;
Não se perde a areia quanto mais o ai...
O cego:
— De que cor é a vaga, quando está dormindo
Ao sopé da terra? Dize, meu amor.
O filho:
— É da linda cor
Que lhe empresta a terra, sol a sol tão lindo;
É da cor da esperança...
Mas, do mar, às vezes, num cruel momento,
Essa cor se perde...
O cego:
— Ah! nem sempre é verde?!
O filho:
— Nem sempre é verde, se a fustiga o vento.
O cego:
— Dessa forma, filho, no meu pensamento,
Muda a cor a esperança...
(ouvindo o filho chorar)
— És ainda criança,
E já sofres tanto por sofrer me veres,
Quanto mais se um dia, quando eu morrer, souberes
Que não tive graças para t’as deixar...
Choras, filho amado? Para que chorar...
O filho:
— Deixa que eu no pranto lave as minhas mágoas...
Desde pequenino dentro da alma trago-as.
O cego, acariciando o filho:
— E essa noite fria, cheia de neblinas,
Sem a luz dos astros, sem a luz do luar,
Toda amortalhada de mortalhas finas;
Dessa noite fria, amargurada noite,
Dize, meu filhinho, se eu conheço a cor...
O filho:
— É da cor profunda das melancolias
Da alma que soluça, vive a soluçar,
Como se ela fosse um revoltoso mar,
Pelas invernias,
De um vento medonho no terrível açoite,
Que estremece os próprios escarcéus e abrolhos...
O cego:
— Já eu sei, meu filho, de que cor é a noite,
Pois a tenho dentro dos meus pobres olhos.