Diante do mar

By João da Cruz e Sousa

Para matar o letargo

Da vida, e o profundo tédio,

Fui, em busca de remédio,

Ao cais arejado e largo.

E vi o mar formidando,

Cheio de mastros e velas,

Ocultos clarins vibrando

Pela boca das procelas.

Vi tropéis e tropéis bruscos

De ondas revoltas e crespas

Com rijos ferrões de vespas

Ferreteando os ares fuscos.

Vi os límpidos navios

Jogados do mar incerto

Como seres erradios

Por inóspito deserto.

Vi tudo nublado, tudo,

Céus e mares e horizontes;

E sobre a linha dos montes

Cair o silêncio mudo.

E eu lembrei-me quando a aurora

Sobre aquelas esverdeadas

Águas jorrava sonora

A luz em puras golfadas.

Lembrei-me desses supremos

Dias acres de alegria

Na vaga loura e macia

As leves palmas dos remos.

Do resplendor das viagens

Num encanto matutino

A doçura das aragens,

Por sobre o mar cristalino.

A bicar as doces ilhas

De pedra, musgos e flores,

Cheias de ervas e frescores

E naturais maravilhas.

Que ela a tudo perfumasse

Como um rosal que floresce

Que tudo que nela houvesse

Resplandecesse e cantasse.

Ou ver na frente das casas,

Dos vales e das colinas

Os pombos batendo as asas,

Entre festões de boninas.

Ir a pesca alegre e fresca

Por suavíssimos luares,

Numa lua pitoresca,

Em cima dos salsos mares.

Quando flexível canoa

Vai deixando um vivo rastro,

Fundo, aberto, feito de astro,

Na vaga que brilha e soa.

Quando na margem campestre

De rios indefinidos

Sente-se o aroma silvestre

Dos aloendros floridos.

Lembrei-me até das regatas

Numa hora deliciosa

De manhã cheirando a rosa,

Toda de fúlgidas pratas.

D’embarcar, como um fidalgo,

Para aventuras de caça,

Em companhia do galgo

Que é das caçadas a graça.

Ir d’espingarda e d’estilo,

Por madrugadas serenas,

Sem males, sem dor, sem penas,

Peito bizarro e tranquilo.

Bater as aves no mato

Por entre arvoredos graves,

Ou da beira de um regato

Ver saltar em bando as aves.

E da ventura nos jorros

Voltar da caça repleto

Vendo ao longe o rubro teto

Da casa e o verde dos morros.

Ou então ir como um duque

Nas praias de mais beleza

Gozar na choça de estuque

Uns olhos de camponesa.

Sentir do equóreo elemento,

Sobre as serras verdejantes,

Ruflantes e sussurrantes

As ventarolas do vento.

Deixar o espírito, avaro

De vida, saúde e força,

Disparar — alada corça —

Pelo azul radioso, claro.

Assim, talvez que o Nirvana

Do tédio e letargo imenso

Não fosse uma dor humana,

Dentre um nevoeiro tão denso.