Dor e saudade

By Delminda Silveira de Sousa

Dezenove de Abril! infausto dia

em que se apagou a luz de sua vida,

como o raio da tarde esmorecida

no regaço da noite escura e fria!

Bem formoso, no entanto, o sol brilhava,

era o Céu tão azul... tão verde o prado...

e eu tinha o coração dilacerado,

e a minh’alma negra dor trajava!...

Quadro horrível d’acérrima agonia,

— o pranto e o luto à dor entrelaçados

a meus olhos em lágrimas banhados

eis tudo quanto a morte oferecia!...

Ai! quanto eu sinto funda a mágoa intensa

desta dor que me enluta a triste vida,

ao pesar de uma mãe terna e querida

a irreparável perda, a falta imensa!...

Ela era a luz que os passos meus guiava,

era a flor que a meus olhos aprazia,

era o afeto mais doce que eu sentia,

era o mais santo amor que me alentava!...

Dos meigos olhos seus o doce brilho,

de ver tão cedo extinto, eu não cuidava!

E essa voz que no lar tudo alegrava

não mais ouvir-se a consolar o filho!...

Consolo n’aflição, na dita — encanto,

su’alma, claro espelho, refletia

as nossas aflições, noss’alegria,

nos ledos risos, no sensível pranto!

Tesouros de ternura e amor, seguro,

guardava em seu materno coração,

como a rosa no púrpuro botão

o mais doce perfume, o mel mais puro!

Mas, ah!... qual meiga flor que na doçura

do grato aroma seu remonta aos Céus,

su’alma terna alou-se para Deus

do maternal amor na essência pura!

Lá, na Excelsa Mansão da Eterna Vida,

onde ecoam suspiros da orfandade,

aceita, nos perfumes da saudade,

o triste pranto meu, oh, mãe querida!...