DOUS IMPOSSÍVEIS

By Laurindo José da Silva Rabelo

Jamais! quando a razão e o sentimento

Disputam-se o domínio da vontade,

Se uma nobre altivez nos alimenta

Não se perde de todo a liberdade.

A luta é forte: o coração sucumbe

Quase nas ânsias do lutar terrível;

A paixão o devora quase inteiro,

Devorá-lo de todo é impossível!

Jamais! a chama crepitante lastra,

Em curso impetuoso se propaga,

Lancem-lhe embora prantos sobre prantos,

É inútil, que o fogo não se apaga.

Mas chega um ponto em que lhe acena o ímpeto

Em que não queima já, mas martiriza,

Em que tristeza branda e não loucura

À razão se sujeita e harmoniza.

É nesse ponto de indizível tempo

Onde, por misterioso encantamento,

O sentir a razão vencer não pode,

Nem a razão vencer ao sentimento.

No fundo de noss’alma um espetáculo

Se levanta de triste majestade,

Se de um lado a razão seu facho acende

De outro os lírios seus planta a saudade.

Melancólica paz domina o sítio,

Só da razão o facho bruxoleia

Quando por entre os lírios da saudade

Do zelo semimorto a serpe ondeia!

Dous limites então na atividade

Conhece o ser pensante, o ser sensível:

Um impossível — a razão escreve,

Escreve o sentimento outro impossível!

Amei-te! os meus extremos compensaste

Com tanta ingratidão, tanta dureza,

Que assim como adorar-te foi loucura,

Mais extremos te dar fora baixeza.

Minh’alma nos seus brios ofendida

De pronto a seus extremos pôs remate,

Que mesmo apaixonada uma alma nobre

Desespera-se, morre, não se abate.

Pode queixar-se inteira a f’licidade

De teu olhar de fogo inextinguível,

Acabar minha crença, meu futuro,

Aviltar-me! jamais! É impossível!

Mas a razão, que salva da baixeza

O coração depois de idolatrar-te,

Me anima a abandonar-te, a não querer-te,

Mas a esquecer-te, não, sempre hei de amar-te!

Porém amar-te desse amor latente,

Raio de luz celeste e sempre puro

Que tem no seu passado o seu presente,

E tem no seu presente o seu futuro.

Tão livre, tão despido de interesse,

Que para nunca abandonar seu posto,

Para nunca esquecer-te, nem precisa

Beber, te vendo, vida no teu rosto.

Que, desprezando altivo quantas graças

No teu semblante, no teu porte via,

Adora respeitoso aquela imagem

Que deles copiou na fantasia.