DUAS MULATAS QUE INDO A FESTA DE SAM CAETANO SE LHE QUEBRÀRAM AS CORDAS DA REDE ...
Foi com fausto soberano
Macotinha, e a Pelica
assistir à festa rica
dia de São Caetano:
o povo bárbaro, e insano
vendo aqueles dous putões,
calçado de admirações
disse, que o caso era adrede,
pois nunca em malhas de rede
vira tomar dous cações.
Um cação duro, e grosseiro,
má pele, e péssimo dente
ou à força de um tridente
se toma, ou de um bicheiro:
este é o dia primeiro,
que em rede os vimos tomar;
as redes a caminhar,
e a murmurar os meus Chitas,
palavras não eram ditas,
quando as cordas vi quebrar.
Caiu Pelica no entanto,
e fincando o cu no cisco
buscou logo o basalisco,
que lhe dera o tal quebranto:
pareceu-lhe, que era encanto
quebrar-se-lhe o barbicacho,
e assim disse em tono baixo:
o basalisco anda em cima,
mas eu tenho noutro clima
um basalisco por baixo.
De um e outro basalisco
veremos, qual obra mais,
vós as cordas me cortais,
e eu os ossos vos confisco:
eu sempre vos ponho em risco,
se me tomais, eu vos tomo,
pois vos tomo, e vos corcomo;
e do basalisco a ingrata
vista não co me, só mata,
mas eu vos mato, e vos como.
A rede se consertou,
e ela metendo-se dentro,
como se viu no seu centro,
como peixe n’água andou:
dizem, que as cordas pagou,
com que a rede se lhe atara,
e bom fora, que pagara
em vez de cordas então
de um dos negros o bordão,
se nas costas lho quebrara.
A gente ficou mui leda
vendo a Pelica no chão,
e dizia o Povo então
quem mais sobe, dá mor queda:
porém ela não se arreda
de andar sem rede, porque
quer antes, como se vê,
haver da rede caído
para ter um pé torcido,
que ser sã, e andar a pé.