DUAS MULATAS QUE INDO A FESTA DE SAM CAETANO SE LHE QUEBRÀRAM AS CORDAS DA REDE ...

By Gregório de Matos Guerra

Foi com fausto soberano

Macotinha, e a Pelica

assistir à festa rica

dia de São Caetano:

o povo bárbaro, e insano

vendo aqueles dous putões,

calçado de admirações

disse, que o caso era adrede,

pois nunca em malhas de rede

vira tomar dous cações.

Um cação duro, e grosseiro,

má pele, e péssimo dente

ou à força de um tridente

se toma, ou de um bicheiro:

este é o dia primeiro,

que em rede os vimos tomar;

as redes a caminhar,

e a murmurar os meus Chitas,

palavras não eram ditas,

quando as cordas vi quebrar.

Caiu Pelica no entanto,

e fincando o cu no cisco

buscou logo o basalisco,

que lhe dera o tal quebranto:

pareceu-lhe, que era encanto

quebrar-se-lhe o barbicacho,

e assim disse em tono baixo:

o basalisco anda em cima,

mas eu tenho noutro clima

um basalisco por baixo.

De um e outro basalisco

veremos, qual obra mais,

vós as cordas me cortais,

e eu os ossos vos confisco:

eu sempre vos ponho em risco,

se me tomais, eu vos tomo,

pois vos tomo, e vos corcomo;

e do basalisco a ingrata

vista não co me, só mata,

mas eu vos mato, e vos como.

A rede se consertou,

e ela metendo-se dentro,

como se viu no seu centro,

como peixe n’água andou:

dizem, que as cordas pagou,

com que a rede se lhe atara,

e bom fora, que pagara

em vez de cordas então

de um dos negros o bordão,

se nas costas lho quebrara.

A gente ficou mui leda

vendo a Pelica no chão,

e dizia o Povo então

quem mais sobe, dá mor queda:

porém ela não se arreda

de andar sem rede, porque

quer antes, como se vê,

haver da rede caído

para ter um pé torcido,

que ser sã, e andar a pé.