Ecce Homo!

By Delminda Silveira de Sousa

Ei-lo, caminha, as longas ruas

Do sacrossanto sangue regando;

Ei-lo, caminha; que duras puas

A fronte bela lhe vão rasgando!...

Que espinhos duros, meu Deus! que espinhos

Lhe tecem a coroa das aflições!

Ele — que dera tantos carinhos,

Tão salutares consolações!...

Que é dos amigos fiéis de outrora?...

Respeito, afetos, amor, cuidados?...

— Ai! — mil tormentos em cada hora,

Ai! mil algozes desapiedados!...

A cruz que aos ombros débeis levava

Com peso tanto, já lhos feriu;

A luz dos olhos que a dor turbava,

Falta um momento... Jesus caiu!

A turba louca, na fúria insana,

Pragueja horrenda, os punhos cerra;

Porém, quem sabe? — que graça emana

Dos lábios d’Ele beijando a terra!...

Ouve um gemido... Os olhos volve,

A mãe aflita ali depara;

Almas piedosas o olhar envolve...

Consolo triste! Dor mais amara!

— “Oh! não choreis, terno, murmura,

Assim, por mim; oh! não choreis,

Que só por vós nesta amargura,

Por vossos filhos chorar deveis.” —

E além caminha, as longas ruas

Do sacrossanto sangue regando;

Que fundas mágoas, que duras puas

O peito amante lhe vão rasgando!