ÉCLOGA IX

By Cláudio Manuel da Costa

Enfim, belos amores,

Doce consolação dos meus sentidos,

Trocaram-se em rigores

As finezas de Laura: ânsias, gemidos

Ocupam hoje a parte que algum dia

A imagem alentava da alegria.

Sem glória o peito amante

Se vai rendendo a um fúnebre delírio,

Sentindo a cada instante

Aflita a idéia do fatal martírio.

Oh! quanto aflige, Amor, oh! quanto cansa

De um bem perdido a mísera lembrança!

Buscando o desafogo

Ao mal veemente, subo a um alto monte,

Do qual diviso logo

As belas margens dessa clara fonte,

Que em pródiga corrente, em fértil veia,

Anima os verdes campos de Amaltéia.

Ali sobre um rochedo,

Próprio sítio da minha desventura,

Que de horror, e de medo

O tempo veste, a sombra desfigura,

Cujo eterno segredo não altera

Racional criatura, ou bruta fera;

Sentado tristemente,

Muda estátua da dor, em vivos ecos,

Convoco ternamente,

Ao som de meu suspiro, os troncos secos,

As mudas penhas, as mimosas plantas,

Que me venham ouvir em mágoas tantas:

Vós, lhes digo, sonoras,

Doces águas do plácido Mondego,

Que vedes as traidoras

Faces gentis do meu amado emprego;

Que vendo estais meu terno rendimento,

Pois vos duplica as águas meu lamento;

Vós, troncos generosos,

Imagens insensíveis de meu dano,

Que a laços enganosos

Talvez fostes arrimo, em vosso engano

Podeis, ó troncos, já ter alegria,

Que a um infeliz alenta a companhia.

Vós, mudas penhas, triste

Figura da constância de meu peito,

Onde o retrato existe

Daquele objeto, por quem já desfeito

Meu fino pranto desperdiço agora,

Mármore duro, penha vividora;

Ouvi-me vós, vós, me escutai, que eu louco

Busco atenção nos brutos insensíveis.

Não é meu mal tão pouco,

Que não possa fazer em vós possíveis

A compaixão, a mágoa, e a piedade,

Tanto pode da dor a atividade.

Convosco, ó penhas duras,

Mil vezes o meu bem comunicava.

Tu, Rio, inda o murmuras;

Seu nome nesta penha se gravava;

Ali conserva ainda no horror bronco

O nome de meu bem aquele tronco.

Eu mesmo venturoso

Neste retiro à muda soledade

Comuniquei gostoso

Aquela singular felicidade,

Que, para dilatar minha ânsia fina,

Só no fim me mostrou o que é ruína.

Dizia-vos: eu amo

A mais bela, a mais rara gentileza,

Por quem tanto me inflamo,

Que todo o bem o coração despreza;

Corresponde-se grata a meus ardores;

Feliz sou eu, felizes meus amores.

Inveja eu de Cupido,

Emulação gentil dos Astros ela:

Em zelos incendido

Gemia Amor, chorava cada estrela

O seu desprezo: mas (oh! triste fado!)

Vingou-se Amor; o Céu se tem vingado.

De vítima profana

Manchou-se o altar sagrado; da firmeza

Cedeu a desumana,

A perjura, a inconstante gentileza;

E foram suas vozes (oh! tormento!)

Fáceis lisonjas do ligeiro vento.

Afável, carinhosa

(Mas que digo!), infiel, falsa, fingida,

Já procura enganosa

Outro Pastor: e a seu favor convida

Um néscio amante, a quem talvez espera

Na glória, que hoje goza, a ruína fera.

Para desvanecer-te,

Ó enganado amante, bem discorro,

Que se chego a dever-te

Inteira fé das penas, em que morro,

Verás dessa inimiga a vil mudança,

E inda eu de ser feliz tenho esperança!

Eu me vi levantado

Ao mais soberbo cume dessa dita,

E medi despenhado

A distância (ai de mim!), que era infinita;

Como podes julgar, que advirto louco

Na mesma glória, que perdi há pouco.

Essa mesma, que agora

Branda te acolhe, te recebe afável,

Já me entregou uma hora

A rela mão, dizendo: nunca instável

Tu me verás, Pastor, a experiência

Mostrou bem desigual correspondência.

Mais feliz te contemplo,

Do que fui, porque tens a minha sorte,

Onde seguro exemplo

Tema a tua ventura; o peito forte,

Oh! não a creia não; que eu quando a cria,

Mil vetes cada hora me mentia.

Quem emendar pudera

O sacrílego impulso da vontade,

Quando rompi a austera,

Segura condição da liberdade,

Sempre isenta de amor! Mas que resisto!

Só o fizera, não te havendo visto.

Goza, goza esse emprego,

Que tanto o teu cuidado te desvela;

É digno, não o nego;

Desempenha o teu gosto, mas, ó bela,

Vê, lhe não guies a fortuna escura

Pelos passos da minha desventura.

Ah! bárbara beleza,

Produzida nos montes de Ampelusa!

Nasceste entre a fereza

Da mágica Medéia, ou de Medusa?

Bebeste, dite, a natureza insana

Da líbica serpente, ou tigre hircana?

Mas que exemplares trago

De injusta tirania? O tigre fero

Talvez o brando afago

Humilde reconhece; eu desespero,

Ingrata, que, por ser mais feia a culpa,

Um exemplo sequer te não desculpa.

Repara convencida

Naquela amante vide, que enlaçada

Este tronco convida

À mais suave união; vê apertada

A débil planta, como se fizesse

Em cada folha uma prisão, que tece.

Nada verás, perjura,

Que imagens da constância, e da firmeza

Te não proponha: oh! dura,

Vil condição da feminil beleza!

Tu só, tu só estragas com jactância

O natural ditame da constância.

Tudo tem destroçado

Da vil mudança a sem-ratão injusta;

E eu triste, cansado

Da violenta paixão, quanto me custa,

Quanto, quanto a lembrança fatigada

De uma dor tão profunda, e tão pesada!

Quisera (ai doce emprego!)

Que nunca despertara o estrondo infame;

E a pena, a que me entrego,

Jamais te acuse, ingrata, jamais clame,

Porque no esquecimento da mudança

Conheças, que inda é minha esta vingança.

E vós, as que me ouvistes,

Mudas penhas, em vosso escuro seio

Sepultai estes tristes

Ecos, que a minha dor expulsar veio:

Não deis sinal algum de minhas mágoas,

Caducos troncos, e mimosas águas.