ÉCLOGA VIII

By Cláudio Manuel da Costa

Ó linda Galatéia,

Que tantas vezes quantas

Essa úmida morada busca Febo,

Fazes por esta areia,

Que adore as tuas plantas

O meu fiel cuidado: já que Erebo

As sombras descarrega sobre o mundo,

Deixa o reino profundo:

Vem, ó Ninfa, a meus braços;

Que neles tece Amor mais ternos laços.

Vem, ó Ninfa adorada;

Que Ácis enamorado,

Para lograr teu rosto precioso,

Bem que tanto te agrada,

Tem menos o cuidado,

Menos sente a fadiga, e o rigoroso,

Implacável rumor, que eu n’alma alento.

Nele o merecimento.

Minha dita assegura;

Mas ah! que ele de mais tem a ventura.

Esta frondosa faia

A qualquer hora (ai triste!)

Me observa neste sítio vigilante:

Vizinho a esta praia

Em uma gruta assiste,

Quem não pode viver de ti distante.

Pois de noite, e de dia

Ao mar, ao vento às feras desafia

A voz do meu lamento:

Ouvem-me as feras, ouve o mar, e o vento.

Não sei, que mais pretendes.

Desprezas meu desvelo;

E excedendo o rigor da crueldade,

Com a chama do zelo

O coração me acendes:

Não é assim cruel a divindade.

Abranda extremo tanto;

Vem a viver nos mares do meu pranto:

Talvez sua ternura

Te faça a natureza menos dura.

E se não basta o excesso

De amor para abrandar-te,

Quanto rebanho vês cobrir o monte,

Tudo, tudo ofereço;

Esta obra do divino Alcimedonte,

Este branco novilho,

Daquela parda ovelha tenro filho,

De dar-te se contenta,

Quem guarda amor, e zelos apascenta.