ÉCLOGA X

By Cláudio Manuel da Costa

Valha-me o Céu; e como estou pasmado

De ver quão brevemente

Um Pastor que mostrava tanto aviso,

Que era aqui respeitado

Da nossa pastoril, sincera gente,

Pelo mancebo de melhor juízo,

Em louco transformado, o campo todo

Admira, de tal modo,

Que já fogem de ouvir seu triste enredo

Alguns de compaixão, outros de medo!

Ah! grande Umbrano! E quem entenderia

Que a desatino tanto

Uma alma conduzia Amor injusto!

Quem seu golpe creria

De tal vigor, de tal esforço, quanto

Neste Pastor se emprega a tanto custo!

À margem desse lago, macilento,

Pálido e sem alento,

Anda girando este infeliz amante,

Absorto sempre, e sempre delirante.

Que loucuras a idéia fatigada

Não persuade a um triste

Na saudosa lembrança do perdido!

A alma, que estampada

Traz a imagem do bem, que mal resiste

Da infausta pena ao fúnebre ruído!

Deste Pastor tão belo bem sabemos,

Com que finos extremos

De Angélica adorava o doce encanto!

A sua ausência é causa de seu pranto.

Mas bem que ouvir ingratos desatinos

Mais parece impiedade

Que compaixão que alente humano peito,

A ouvir os peregrinos

Desconcertos me chego, que a saudade

Dita em seu coração, de amor desfeito.

Agora que tem posto

Dentro do lago os olhos, e o desgosto

No semblante se vê mais declarado,

Chegar-me quero a ouvir o seu cuidado.

Não são águas mimosas

Estas correntes, não; eu nelas vejo

As desfolhadas rosas

Das faces de meu bem: o meu desejo

Com enganosa tinta

Esta glória nas águas me não pinta.

Vós, olhos, que serenos

Representais as lúcidas estrelas,

Que suaves venenos

Alimentando estais nas faces belas!

Venenos, que bebidos

Sempre hidrópicos têm os meus sentidos.

Enredados cabelos,

De donde Amor me despediu as setas,

Fostes a meus desvelos

As correntes mais doces, e inquietas,

Que em mãos de suavidade

Me prendem para sempre a liberdade.

Choras? Ou te estás rindo?

Se choras, a saudade te agradeço;

Se te ris, eu sentindo

Fico o mal desta ausência, que padeço.

Quem fora premiado

Em tão ilustre fé, em tal cuidado!

Aqui vagando vivo

À margem deste lago, aqui discorro

Confuso, e pensativo,

Buscando sempre a causa porque morro:

O seu divino rosto

O Céu, por consolar-me, aqui tem posto.

Dentro desta corrente

Habita a minha Angélica; o semblante

Rico e resplendecente,

Aqui vejo nesta água a cada instante.

Em Ninfa transformada,

Aqui quis eleger sua morada.

Mil vezes no despenho

Me lembra Alfeu rendido e namorado;

A segui-lo me empenho,

E me impede, não sei se Amor, se o Fado;

Buscara a sua sorte,

Mas dele não invejo mais que a morte.

Consolação pesada

É seguir este alívio; se não gozo

A face delicada,

Termo de meu destino venturoso,

Quanto o ver me atormenta

Que o mesmo, que possuo, se me ausenta!

Nesse lago do Averno

É bem sabido como um desgraçado

Vive em tormento eterno,

Só por lhe ser (oh! dura lei!) negado

O licor da corrente,

E o pomo que se mostra florescente.

Retrata o meu martírio

De Tântalo infeliz a desventura:

Qual lhe chama delírio,

Qual excesso da dor! Mas se a loucura

Vem tão discretamente,

Louco me espere sempre toda a gente.

Não há, nem pode haver mais desconcerto

Que o deste infausto amante:

Quão grande é o poder da fantasia!

Julgar que tem tão perto

Aquele bem, que vive tão distante,

Delírio é só da mísera porfia.

Imagina presente o bem amado

O triste desgraçado

(Ah! ditosa loucura!). Pois na idéia

Trazes aquele alento, que recreia.

Porém (oh! que delírio a alma alcança!)

Como nunca o destino

Nos conduz para o bem de uma ventura!

Pacífica bonança

Encontrara este amante peregrino,

Se obrasse uma hora igual a sorte escura:

Mas para mais desgosto

Todo o prazer na idéia está disposto,

E seu tormento infiel por derradeiro

Tanto é mais duro, quanto verdadeiro!

A noite vem caindo, eu me retiro:

Pois querer dar sossego

A quem tem no seu erro o seu descanso,

Que é tirania, infiro,

Só natural a um coração tão cego,

Que ignora o desconcerto que eu alcanço.

Que triste anda um amante,

A quem traz seu cuidado delirante!

Pois para ser maior sua agonia,

Tem todo o seu prazer na fantasia!