ÉCLOGA XI
Deixa-me: não admito, Algano amado,
Sossego algum no mísero acidente
De tão profunda dor, mal tão pesado.
Como queres que chegue a estar contente,
Vendo tão malograda aquela idade
Do meu Pastor, do meu Salício ausente!
Tu sabes que nos laços da amizade
Mais estreita, mais fina, e mais segura,
Única em nós havia uma vontade:
Do gênio à suavidade, e à brandura
Me conformava eu tanto, que violência
Me faz em não levar-me a morte dura.
Que fico eu cá fazendo nesta ausência,
Se haver não pode alívio que conforte
A grave dor da minha impaciência!
Errou o golpe bárbaro da morte:
A inveja bem mostrou no desacerto,
Podendo em duas vidas ser mais forte.
Ai! doce Algano meu! E que concerto
Pode achar o discurso naufragante
Deste dano fatal no golfo incerto!
Roubou-me a Parca de meu peito amante
Um bem tão precioso, que na terra
Não espero ver outro semelhante.
Sabes que entre os Pastores desta serra
Era o meu bom Salício o mais amado
De todos quantos a montanha encerra.
Era do velho Alfemo respeitado;
Ele nos recordava cada dia
De Salício as ações, gênio, e agrado.
Quando entre nós algum certame havia,
Este sábio Pastor com arte e modo,
Os duvidosos casos resolvia.
Em concorrendo o nosso campo todo,
Era Salício a flor: nesta lembrança
A sofrer tanto mal não me acomodo.
Em todo o baile, em todo o jogo, ou dança,
Que convidasse o gênio da floresta,
Ele excedia sempre a esperança.
Não sei, Daliso meu, que lei é esta,
Tão dura, tão cruel, que em nosso dano,
Na parte mais mimosa é mais molesta.
Há poucos dias que ao Pastor Montano
Lhe morreu uma ovelha, a mais formosa,
De quantas lhe tragara o lobo hircano.
Bem sabes que entre todas mais vistosa
Era dos dois novilhos a parelha
Que eu tinha; e deu-lhe a peste venenosa.
Esta de cor dourada desde a orelha
De inveja aqui trazia os mais Pastores:
Morreu uma; e ficou outra mais velha.
Bem vemos nós do campo os moradores,
Que no ano em que é Ceres mais fecunda,
Dando mais abundância aos lavradores;
Quando o terreno fertilmente inunda
Na cópia das searas carregadas,
Onde o agricultor seus dotes funda;
Então, ou vêm as águas mais pesadas,
Ou vem o Sol ardente, e tudo morre,
Ficando as plantas pelo chão prostradas.
Esta disposição, se se discorre,
Daliso, com acerto e com prudência,
Que é só mistério oculto, à idéia ocorre;
Mistério que não vê mortal ciência,
Que não alcança humana conjectura,
Por lei da inescrutável providência.
Algano, assim será: porém que cura
Queres, que tenha um golpe tão violento,
Que me roubou tão breve uma ventura!
Se alheio de si mesmo o entendimento
O que vê não compreende, nem alcança,
Como há de agora discorrer atento!
Eu vejo, Amigo, a mísera lembrança
Da que eu imaginava glória minha,
Prostrada a base infiel da segurança.
Que fosse eterno tanto bem convinha,
Ou que durar pudesse mais idade,
Segundo os raros dotes que em si tinha.
Para que nos vem dar felicidade
Jove, o grande senhor da humana vida,
Se há de acabar com tanta brevidade!
Entregar-nos uma alma enriquecida
De prendas tão gentis, só para efeito
Pode ser de lograda e possuída.
Quanto nesse discurso erra o conceito!
E sempre nessa crédula ignorância
O desengano achamos mais estreito.
Chamarmos nosso bem é vã jactância,
Que entre nós, os mortais, só é precioso
O inestimável dote da constância.
Tudo é de Jove: em trono luminoso,
Ele as maiores graças nos dispensa,
Se a nós se inclina o rosto seu piedoso.
Dos seus raios despede a chama intensa,
E quando nos parece que é castigo,
O faz por nosso bem, não por ofensa.
Bem lhe podemos crer o rosto amigo,
Inda quando em vingança do inocente
O imaginamos nós mais inimigo.
Este segredo a nós não é patente:
E se o fora, faltara a divindade
E o privilégio a Jove onipotente.
Não cabe na mortal calamidade
Exceder tanta mísera fraqueza,
E menos nesta vil rusticidade.
Aqui notamos só como a fereza
Do lobo, animal feio, monstro indigno,
Ofende a ovelha, que a inocência preza.
Vemos aquele gênio mais maligno,
Que está cheio de frutos abundantes,
Entre todos havido por mais digno:
Não são as suas prendas tão brilhantes,
Que ofusquem o maior merecimento
De outros, que vimos abatidos antes.
Jove, que lá criou o firmamento,
A certos Astros deu mais resplendores,
Deixando a outros menos luzimento.
Discorres muito livre as tuas dores:
O teu pesar, a tua pena, e mágoa
Desconhece estes míseros horrores.
A pena inconsolável, que na frágua
Da memória me aumenta a desventura,
Mal se sufoca em dons dilúvios d’água.
Ai! Salício infeliz! Ai! morte dura!
Como pode esquecer tua lembrança
A quem te consagrava fé tão pura!
Minha saudade tomará vingança
Dessa pérfida, infame tirania,
Que de afligir os homens não se cansa.
Aqui entre estas penhas à porfia
Hei de chorar, Amigo, a tua morte,
Té se abalar a mesma serrania.
Será de minha dor, será tão forte
Aquele impulso, com que eu fira as brenhas,
Que as mesmas feras à piedade exorte.
Os Faunos nesses côncavos das penhas
Hão de escutar meu fúnebre gemido,
Clamando em vão por ti, que ouvir me venhas.
Que deixes esse trono apetecido,
Aonde estás sentado em teu descanso,
E me seja teu rosto concedido.
Que venhas escutar com gesto manso
Aquela minha lira descontente,
Que tanto em afiná-la hoje me canso;
Confessavas um tempo, Amigo ausente,
Que o meu canto sonoro e lisonjeiro
Só abrandava a tua mágoa ardente.
Mas ah! que nesse trono derradeiro,
Neste centro de luzes mal ouvido,
O meu canto será tosco e grosseiro.
Quebrar te quero, em vão de mim possuído,
Instrumento infeliz: que me aproveita
Da torpe voz o dissonante ruído?
Ah! Se foras aquela voz eleita,
Para trazer do Tártaro a formosa
Deidade, cujo pacto Jove aceita!
Se foras tão feliz, tão poderosa,
Que outra vez repusesses nesta esfera
Do meu Salício a alma venturosa!
Não acabara a verde primavera
Destes campos: nas árvores, nas flores,
Se não vira a campina tão austera.
Ao domínio dos rústicos Pastores
Obedecendo, a cabra, a ovelha, o touro
Pastaram, dando gosto aos guardadores:
Não mostraria tudo infausto agouro,
Os Gênios não andaram todos tristes,
Febo não escondera os raios d’ouro.
No teu lamento, Amigo, em vão persistes:
Porque não é Salício inda o primeiro,
Que do Lete às ribeiras baixar vistes.
Em cada faia enfim, cada salgueiro
Se lê um epitáfio a qualquer morto:
Discorre, e assim verás o campo inteiro.
No comum sentimento ache conforto
O mal comunicado; o teu gemido
Assim do alívio se recolha ao porto!
Ai! Algano!... porém se o meu ouvido
Se não engana, eu ouço desta parte
Um canto harmonioso e mui sentido.
Eu estava também para avisar-te
Da minha suspensão: daqui mais alto
Podemos ver, se queres levantar-te.
Ai! que diviso já de alentos falto
O velho Agrário, e a consorte amada,
Eulina, a quem rendera o sobressalto!
São de Salício os Pais: oh! lei pesada
Da morte crua! Que fatal desgosto
Se vê na face de ambos magoada!
Ele no Céu os olhos tem já posto;
Ela de grave mágoa combatida
Abaixa à terra o peregrino rosto.
O funesto espetáculo convida
A romper, caro Amigo, o peito em pranto,
E a consumir em seu tormento a vida.
Não há pena maior, nem dor, que tanto
Possa agravar a humana desventura.
Quem viu golpe maior, maior quebranto!
Afogam-se meus olhos de ternura,
Meu coração em mil pedaços feito
Chora o golpe cruel da sorte dura.
Ouçamos o seu canto: mas que peito
Pode haver tão constante, e endurecido!
Eu não me exponho a lance tão estreito.
Adeus, Daliso: em vão compadecido
Me atrevo a consolar-te; antes discorro
Que vim buscar mais causa a meu gemido.
Também, Amigo, eu a seguir-te corro:
Mas que faço, infeliz! Onde pertendo
Esconder esta mágoa, com que morro!
Já os amados Pais a voz erguendo,
Vão consolando a pena: os seus pesares
Também co’a minha dor irão tecendo.
Que bem de compaixão ferindo os ares,
Acompanhar o espírito saudoso
Sabem do pranto seu nos ternos mares!
Que fado tão cruel, tão rigoroso!
A mísera fortuna
Não maldigas, Esposa, que a suprema
Sagrada mão não sofre a dor blasfema.
Ignorante e importuna,
Acusa de impiedade
Disposições da eterna Divindade.
Vive a humana fraqueza
De Júpiter sujeita ao raio ativo;
E de seu braço o golpe executivo
Empregando a fereza,
Bem que o efeito descobre,
A providência suma nos encobre.
Salício, o nosso amado,
Penhor da casta fé, querida Eulina,
Eu bem vejo, Consorte peregrina,
Que era do nosso agrado
Digno objeto: mas este,
Que o Céu nos rouba, foi penhor celeste.
É livre aos lavradores
Recolherem do campo a sua planta:
Ninguém disso se admira, nem se espanta;
E só nas nossas dores
Nos confunde que leve
Jove o que é seu, e em nós guardado teve.
De Jove era criatura
Salício, o nosso filho; Jove o guia
A eterna luz, à eterna Monarquia,
Aonde em paz segura,
Aquela alma ditosa
Zombe da nossa sorte lastimosa.
Jamais contentamento,
Alegria ou prazer será loucura,
Que eu espere na minha desventura:
Porque perdido o alento,
Na falta de Salício,
Só lhe faço da pena sacrifício.
Sacrifício violento,
Se bem que enternecido; pois de todo
A chorar esta perda me acomodo,
Sem que do meu tormento
Outro alívio pertenda
Mais que o termo fatal desta contenda.
Que vença o meu martírio
Só espero; e lhe cedo voluntária
Qualquer constância, ou força temerária,
Que em meu néscio delírio,
Me persuada alento
Sobre tão porfiado sentimento.
Que debalde procuro
Consolar-te, querida, se conheço
Que delira também no mesmo excesso
O meu tormento duro!
Ah! Salício! Ah! memória!
Faltaste-me, faltou-me toda a glória.
Enquanto na floresta
Der alma a primavera às tenras flores;
Enquanto o seco outono aos lavradores,
Com mão nunca molesta,
Conceder carregadas
As searas que o Sol deixou douradas.
Enquanto na montanha
Pela fresca manhã a aurora bela
Espalhar os orvalhos que congela;
E na verde campanha
Brotarem socorridas
As plantas do calor amortecidas.
Enquanto neste monte
Se ouvirem os balidos saudosos
Dos tenros cabritinhos, e sequiosos
Buscando apura fonte
Deste sítio sombrio
As ribeiras descerem desse rio.
Não verás, filho amado,
Adorado meu bem, caro Salício,
Não verás este amante sacrifício
Torpemente apagado
Por despojo violento,
Com que se orne o altar do esquecimento.
Verás a minha pena,
Ó sempre inestimável, filho amado,
Agitando o rumor do meu cuidado,
Até que em paz serena,
Presente à tua vista,
Na tua amada companhia assista.