ÉCLOGA XII
A fúnebre harmonia,
Dissonante lamento
Dos estragos de Amor, escuta um dia,
Adorada ocasião de meu tormento;
E em mísera figura,
Verás do teu Pastor a desventura.
Daliso sou, que canto
De Salício a desdita;
A ver se deixo, pela voz do pranto,
A minha mágoa duramente escrita,
Tomando a sombra alheia,
Por não fazer a mágoa inda mais feia.
Em um bosque sombrio,
Funesto sítio escuro,
Levado do seu louco desvario,
Salício, a quem o duro,
Ingrato fado havia
Roubado em Amarilis a alegria;
Apascentava o gado
De si tão esquecido,
Que todo pelas serras espalhado,
Qual ficava perdido,
Qual entre as garras era
Despojo triste da maligna fera.
Enquanto o Sol guiando
Para o berço das águas
O luminoso carro vai girando,
Coberto o rosto, e cheio enfim de mágoas,
Em si mesmo atendendo,
Assim falando vai, assim dizendo:
Aonde vou guiando o meu rebanho,
Pobre de mim, sem tino e sem cautela,
Por tão escuro bosque, sítio estranho!
Como perdida a minha amada bela,
Me conduz meu tormento a esta estância,
Se apenas o segredo habita nela!
Acaso o desafogo de minha ânsia
Acharei entre os troncos e penedos,
Que são imagens da maior constância!
Acaso estes sombrios arvoredos
Poderão divertir a infausta história
Dos, que Amor me teceu, tristes enredos!
Malfeito, que o tumulto da memória
Recobre algum sossego, quando lida
Com as lembranças da passada glória.
Tão viva n’alma a dor desta ferida
Está, que há de igualar da eternidade
A larga série, a duração comprida;
E o pensamento meu, que se persuade
De querer apagar da idéia a chama,
Cada vez mais se cobre de saudade.
Não se desmaia assim, de quem bem ama,
O extremoso afeto; o fogo ativo
Com imortal ardor o peito inflama.
Leva da morte o golpe executivo,
Para os campos do Elísio a luz inteira
Do fino amor, que n’alma arde tão vivo:
Lá dizem que se estende uma ribeira,
Por onde andam as almas vagabundas,
Seguindo a sorte ingrata ou lisonjeira.
Tu, brando rio, mansamente inundas
Os férteis campos, onde a oposta via
O passo inclina às regiões profundas.
Neste País saudoso, a luz do dia,
Perpétua sempre, sempre vigilante,
Põe em desterro as sombras da agonia.
Se pois só lá descansa um triste amante,
Se nem ainda a mesma morte apaga
O voto fiel de um coração constante,
Como é possível que eu à idéia traga
O delírio infeliz, de que alguma hora
Alívio tenha minha infausta chaga!
Morra minha loucura: que eu já agora
Seguir-te espero, ó peregrino enleio
De um coração, de uma alma que te adora.
Perdido o tino, e da razão o freio
Torpemente estragado, me disponho
A viver sempre de pesares cheio.
Toda a glória, e prazer terei por sonho,
E crendo só na minha desventura,
Já no meu dano a ponderar me ponho.
Dar não quero a meu mal outra mais cura,
Que trazer sempre impresso na lembrança
Todo o passado bem, toda a ventura.
Vamos pois recordando esta mudança;
E não me esqueça do suave alento,
Que achei de Amor na plácida bonança.
Quero esse bem lembrar ao pensamento,
Em cujo ser depositado eu via,
Cruel Amor, o teu contentamento.
Vamos desentranhar da cinza fria
As imagens do gosto, que apagadas
Têm do destino a dura aleivosia.
Que peregrina em tudo... Ah! que embargadas
São minhas vozes de um Pastor que chega,
E vem talvez seguindo-me as pisadas.
Quanto comigo é a fortuna cega!
Pois até este bem da soledade,
Somente porque é bem, gozar me nega.
Debalde é esperar que haja piedade,
Que vai da sorte o mísero progresso
Abrindo sempre o seio da crueldade.
Quem será? É Frondélio: eu o conheço;
Importuno Pastor, inda que amigo;
Já não posso esconder-me: eu lhe apareço.
Valha-me o Céu, Salício! que inimigo,
Que ingrato, que maligno influxo é este,
Que tanto é contumaz em teu castigo!
Não é preciso que eu te manifeste
A forçosa razão que me acompanha
Para o sentir: há muito que a soubeste.
Tem assombrado a toda esta montanha
Este semblante teu tão carregado,
Coberto de uma dor e mágoa estranha.
Vaga sem guarda o teu faminto gado,
Feito dos lobos inocente presa,
Pelos agrestes matos espalhado.
Foges de todo o trato, e até te pesa
Que um amigo os teus passos vá seguindo,
Por saber a razão dessa tristeza.
Fala, dize; que tens? Que estás sentindo?
Mas tu dás um suspiro, e emudecendo
Co’a face sobre o peito vais caindo!
Explica-te comigo; eu estou vendo
Que esperas que os teus males nos declare
De alguma grande dor o estrago horrendo.
Primeiro a doce vida desampare
Este fraco despojo que hoje anima,
Que eu de outro algum, senão de ti, me ampare.
Se o ver-me, caro Amigo, te lastima,
Arranca-me esta vida, que eu não quero
Um bem, que sem ventura não se estima.
Eu morro; eu enlouqueço; eu desespero:
E só da morte dura o horror maligno
É, Frondélio, a piedade que hoje espero.
Já me entrego de todo ao desatino:
Pois a tanto pesar, a tanto susto,
Alívio algum não há, bem que imagino.
Nada faço empenar; a tanto custo
Quero morrer, Amigo; arranca, arranca
Este meu coração: é justo, é justo.
Se a corrente da mágoa não se estanca,
Pela falta talvez do desafogo,
Por negar-te a piedade a porta franca,
Comigo estale embora o ardente fogo
Que recatas zeloso: ao doce efeito,
Menos ativa a mágoa verás logo.
Quero falar, Frondélio; mas desfeito
O coração em lágrimas, desmaia
Balbuciente a língua, a voz no peito.
Cobra sossego um pouco; e enquanto raia
O sol já menos quente nessa esfera,
Para falar-me o teu valor ensaia.
Custoso me será; mas ouve, espera,
Escuta, meu Frondélio: ah! quanto é duro
Sentir de uma lembrança a lei severa!
Perdoa-me, Amarílis; eu te juro
Que amor sim, não a falta de decoro
Rompe de meu silêncio o voto puro:
Eu te respeito enfim, te amo, e te adoro.
Conheces a Amarílis,
A Pastora mimosa,
Mais bela do que Almeja, e mais que Fílis,
Amarílis formosa,
Meu ídolo adorado,
Filha de Alfemo, glória deste prado?
Lembras-te quantas vezes
Convidando a floresta
Às belas noites dos dourados meses,
A pompa manifesta
De seus dotes se via,
E cada vez mais bela parecia?
Acordas-te de quando,
Numa noite daquelas,
Uma flor para o jogo ela tomando,
Colhida entre as mais belas,
Fingindo que eu ganhara,
Risonha me entregou a Ninfa clara?
Aqui, Frondélio amado,
O giro principia
De meu ingrato, meu injusto fado:
Tomou naquele dia
Por sua empresa a sorte
Lavrar na minha glória a minha morte.
A inveja macilenta,
Filha do monstro indigno,
Começou a espalhar com mão violenta
O bárbaro, o maligno,
Contagioso veneno,
Que hoje é causa das mágoas em que peno.
No bosque, prado, e vale,
Não há quem de Salício
Depois daquele dia já não fale:
Daquela flor no indício
Já conhecido, o engano
Se faz universal para meu dano.
A romper-se começa
Pouco e pouco o segredo,
Enquanto a bela Ninfa, que travessa
De nada tinha medo,
Nutria os meus amores
Com o doce alimento dos favores.
Ah! quem, Frondélio, agora
Lembrar-se não pudera
Daquela dita, aquela enganadora
Glória, que detivera
Toda a minha ventura
Sobre a base gentil da formosura!
Mas se está meu tormento
Tão patente, e tão claro,
Quero lembrar o meu contentamento.
Cegamente reparo
Em dar maior valia
No decoro ao pesar, do que à alegria.
Recolhiam-se os raios
Ao centro cristalino
Desse eterno Planeta; a seus desmaios
Sucedia o benigno
Influxo de Diana,
Êmula de Amarilis soberana.
A estas horas, quando
Ao sono se rendia
O velho Alfemo, a Ninfa o véu tomando,
A um jardim descia,
Aonde alegre Flora
Espalha as águas, que uma fonte chora.
Tu, dize, tu, mimosa,
Sonora fontezinha,
Que regas a campina deliciosa
Que pisa a Ninfa minha,
Tu, dize aquela glória,
Se inda a guardas impressa na memória.
Dizei-o vós, ó plantas,
Vós o dizei, ó flores;
Que vós testemunhastes vezes quantas,
Propícia a meus amores,
Amarilis, a bela,
No vosso campo pareceu estrela.
Mas não digais; e antes
Discretamente atentas,
Observai sempre os votos vigilantes,
Que as leis da dor violentas
Têm de todo estragado
No recato infeliz de meu cuidado.
Pois que a dita alcançaste,
Ouve, Frondélio, a pena;
Tu mesmo o meu pesar desafiaste;
Teu respeito me ordena,
Ou a amizade tua,
A que te faça narração tão crua.
Esta glória gozava,
Amigo, quando a inveja
Aos ouvidos de Alfemo se avançava;
E como ver deseja
Vivamente o seu dano,
No descuido da Ninfa tece o engano.
Compreende o delito;
Acusa a ligeireza;
E com ímpio rigor lhe tem perscrito
Que em um cárcere presa
Pague a culpa que eu tenho
De a ter rendido ao amoroso empenho.
Vê, considera, e dize
Com quanta dor, com quanta
Suportará minha alma este castigo!
Lembrar-me glória tanta
Perdida em um instante!
Ah! que dor tão cruel a um peito amante!
Estar na minha idéia
Pintando a tirania,
Que oprime a bela Ninfa! A alma cheia
De angústia, e de agonia,
Em tanto sentimento,
Sufoca-se no horror do pensamento.
Como há de estar aquela,
Formosa como o dia,
Cerrada em sombra escura? Como a bela
Imagem da alegria,
No fúnebre aposento,
Dormirá entre os sustos do tormento!
Ora a fineza minha
De cobarde acusando,
Ora a piedade, que em minha alma tinha,
De ingrata condenando;
Tudo oposto em meu dano,
Convertida a esperança em desengano!
Ah! Quando em tal discorro,
Frondélio meu, a vida
Me enfada e me aborrece; expiro, e morro
Entre a confusa lida
De tão profunda pena,
Que injusto Amor em meu martírio ordena.
Vê tu quanto hei perdido,
E quanto enfim me resta!
De Amarílis o encanto apetecido,
A minha dor funesta,
A glória, a dita, o gosto,
A desventura, a mágoa, e o desgosto.
Na verdade, Salício, o teu sucesso
Notável compaixão me tem devido.
Sei onde chega o bárbaro progresso
De uma dor na lembrança do perdido;
Porém não devo desculpar o excesso
A tempo, que parece o teu gemido
Algum remédio tem: vê, discorramos;
Podemo-lo aplicar, se acaso o achamos.
Pertendes que nos laços da esperança
Outra vez, caro Amigo, a vida ponha!
Queres que entre as ruínas da mudança
Para novo tormento me disponha!
Hei de ser como aquele que a bonança
No meio da tormenta acaso sonha,
E os olhos desatando o sono amigo,
Se acha infeliz no centro do perigo?
Já não creio que pode haver ventura
Para o pobre Salício decretada;
Salvo se vem com máscara perjura
A desgraça impiamente disfarçada:
Eu, que em tantos triunfos vi segura
A glória, que hoje é sombra, é fumo, é nada,
Posso esperar que torne a minha dita?
Quem tão grande loucura inda acredita!
Se em laço de Himeneu o velho Alfemo
Te une à bela Amarílis, eu confio
Que passando um extremo a outro extremo
Não terás de culpar teu fado impio.
Ah! Que nessa lembrança, Amigo, gemo;
Pois é néscia loucura, é desvario
Aspirar um Pastor humilde, e pobre,
À ventura de um bem tão rico, e nobre.
O que faz o tormento mais dobrado
É ver a lei sagrada do decoro,
Impondo-me um silêncio tão pesado
No que sofro, suspiro, peno, e choro:
Eu, um triste Pastor, triste o meu gado;
Ela, Pastora de um divino coro;
Não pode haver igual correspondência;
Sempre temo os excessos da violência.
Mas se Amor é das almas harmonia,
Que o peito escuta, o ouvido não entende,
Esperar posso ainda que algum dia
Seja pago este amor que assim me acende.
Mas enquanto a soberba tirania
De Alfemo os meus gemidos não atende,
Como alívio terei, como descanso?
Como andarei com gesto alegre, e manso?
Sítio sei eu, de donde me parece
Que suposto Amarílis presa esteja,
Pode ser, se de ti se não esquece,
Que inda chegue a escutar-te, e que te veja.
Guia-me tu, Frondélio: qual é esse
Venturoso retiro, oculto à inveja?
Eu quero vê-lo: vamos, vai diante.
Vem; e não te demores um instante.
Vês este vale? Para aquele assento
Fica um pequeno oiteiro, e se divisa
Vizinha a ele a choça, o aposento
De Alfemo, de Amarílis, e Feliza.
Sagrado sítio a meu gemido atento,
Se é que amparas propício a quem te pisa,
Mostra a minha Amarílis: dize aonde
Amarílis, meu bem, em ti se esconde.
Que mais queres? Aquela é a beleza
Da tua amada Ninfa: o seu semblante
Coberto está de fúnebre tristeza.
Triste vem: que pesar a um pobre amante!
Alguém viu, como eu vi, a gentileza
Daquele rosto, mais que a luz brilhante,
Mais bela do que a rosa matutina,
Engraçada, gentil e peregrina!
A seu lado Feliza está sentada,
Ambas na história triste discorrendo:
Talvez de teus amores magoada
A formosa Amarílis vai dizendo.
Escuta: nesta estância retirada
Irei o que ambas dizem percebendo;
Ah! Que um ai Amarílis deu sentida!
Triste fadiga! Lastimosa vida!
Mal haja a feminil loucura minha,
Que de um homem na falsa ligeireza
Imaginou firmeza.
Mal haja o cego monstro que me tinha
Na louca fantasia debuxado
Tão belo o meu cuidado,
Para comprar meu desengano agora
Nas mãos da experiência roubadora.
Habitar esta sombra, ver o dia,
Cheia a alma de horror, de assombro o peito,
Trazer sempre sujeito
O coração à vil melancolia,
Oh! quanto me atormenta, Amor, oh! quanto!
Ah! mísero quebranto,
Fiscal de meu amante rendimento!
Só porque soube amar, sinto o tormento.
Estas eram, Salício fementido,
As lágrimas que eu vi banhar teu rosto!
Artifício disposto,
A contrastar o Nume desabrido
De minha condição! Ah! se eu não fora
Tão crédula à traidora,
Lisonjeira eficácia de teu pranto,
Engenhosa em meu mal não fora tanto.
Quantas vezes, ingrato, esta montanha
Girando por buscar-me à calma, ao frio,
Com generoso brio,
Vieste para empresa tão estranha!
Quantas a noite te deixou no prado!
Quantas o rosto amado
Da Aurora te encontrou, pérfido amante,
Às portas desta choça vigilante!
Que inventos não achaste peregrinos,
Para me contrastar! Que cedro, ou faia,
Que ao tempo não desmaia,
Não guarda ainda os sonorosos hinos,
Que na bem temperada, acorde avena,
Para tecer-me a pena,
Entoaste depois em meu tormento,
O veneno ocultando no instrumento!
Amarílis, o tempo tem mostrado
Que a palavra do amante apenas dura,
Enquanto da ventura
Corre propício o giro acelerado.
Verás, Irmã, mudar-se aquele outeiro
De seu lugar primeiro,
Que se veja nos homens algum dia
Segura a fé que um deles prometia.
Onde, Frondélio meu, me hás conduzido?
Que ao escutar da minha amada a queixa,
Tão magoado me deixa
A constante razão de seu gemido,
Que ao passo que igualando o seu estrago
Lhe recompenso, e pago
O martírio que o fado lhe destina,
É maior que o seu mal minha ruína.
Quero que ela me veja: eu lhe apareço.
Que importa aventurar-me a seus rigores,
Se chegam minhas dores
Do último golpe ao lastimoso excesso!
Se hei de morrer distante à sua vista,
Onde é força resista,
Por lograr este bem da morte ao laço,
Vá-se o temor, o susto, o embaraço.
Chega-te muito embora: arrependido
Já de minha piedade, bem me pesa
De que a tua tristeza
Encontre aqui motivo mais crescido.
Mal haja a compaixão que enganadora
Me persuadiu que uma hora
Quartada a tua pena, quebraria
(Presente o bem, que adoras) a porfia.
Se a fantasia acaso não me engana,
E a luz já menos firme no Horizonte,
Vizinho a este monte
Vejo um vulto chegar deforma humana.
Se de meu triste horror não é pintura,
Nele se me figura,
Amarílis, presente o teu Salício.
Será: oh! que funesto precipício!
Salício sou, querida, não te espantes;
Se bem que de meus males a aspereza,
Qual nunca a vil fereza
Igualou da fortuna nos amantes,
Mudado tem de todo a humana forma:
E este corpo se informa
Da mágoa, dos pesares, da amargura,
Das sombras, da aflição, da desventura.
Tão outro enfim me vejo do que fora,
Que uma estátua da pena me contemplo,
Dos martírios exemplo
Me proponho à vingança; esta alma ignora
O uso da razão; se bem, querida,
Ao passo que duvida
Minha alma, se do corpo o moto ordena,
Conheço que só vivo para a pena.
Vivo só para a pena; e também vivo
Para sempre te amar, Ninfa formosa.
Consulta esta amorosa,
Viva estampa de Amor; no fogo ativo
Verás a tua imagem que respeita
Tão pura e tão perfeita,
A minha adoração, verás prostrado
A teu desprezo duro o meu cuidado.
Inda a meus olhos vens, pérfido amante,
As traições escondendo em teu gemido?
Tu, monstro fementido,
Tu, coração mais duro que diamante,
Escândalo e horror destas montanhas!
Nas ásperas entranhas
Da Hircânia o humor primeiro achar pudeste,
Onde a fereza indômita bebeste.
Crês que inda, ingrato, o cego desatino
De meu primeiro amor me tem cerrada
Na ilusão adorada
De acreditar-te verdadeiro e fino?
Vens privar-me do alívio que ainda gozo
No desterro penoso,
Sendo força que alívio considere,
Quando ver-te, cruel, jamais espere!
Vens protestar finezas? Que esperança
Tão delirante e louca desordena
A face tão serena
Dessa tibieza tua? Vai, descansa,
Segue o sossego teu; deixa que eu triste,
Na mágoa que me assiste,
Deva à piedade tua o grande excesso
De escusar-me este horror com que faleço.
Não venho, amada, não, porque tirano
Fiscal de teu martírio me imagines;
Só para que me ensines
A vencer de meu fado o desumano,
Ingrato giro, venho; da firmeza,
Da fé que guardo ilesa,
Eu venho assegurar-te a chama ativa,
Mais fina, cada vez mais pura, e viva.
Vai-te, inimigo, vai: o desamparo,
Em que viva me tens, morta me deixa:
Verás que a minha queixa
Fora de mim não busca outro reparo.
O desengano meu, que me acompanha,
Será de tão estranha,
Tão inflexível sorte, última cura.
Fora de mim não quero outra ventura.
Desta só breve luz, que me permite
(Por melhor ver a sombra macilenta)
Um Pai, que me atormenta,
Aflita gozarei, pondo limite
Neste oculto retiro ao meu cuidado.
Memórias do passado
Entrada não terão neste aposento,
Habitação da sombra e do tormento.
Ausentou-se Amarílis: ah! Que errado
A contrastar, Salício, se aventura
De uma paixão tão dura
A posse, que em seu peito tem tomado!
Mal haja o monstro cego que mantinha,
Irmã querida minha,
Teu enganoso passo, onde tão crua
Vejas a face da desgraça tua.
Mas enquanto o volúvel movimento
Dessa Deusa inconstante não descansa,
À rapida mudança
Me conformo do giro seu violento.
Já agora seguir quero o curso ingrato
De seu ligeiro trato;
Se pode ainda o fado pôr baliza
Aos casos de Amarílis e Feliza.
Onde foges, cruel? Onde, adorada,
Belíssima ocasião de meu gemido,
Ocultas essa face delicada?
Em que tenho, Amarílis, delinquido?
Por que fazendo agravo da fineza
Me ordenas um rigor tão desabrido?
Foi crime o adorar tua beleza?
Seria: mas o Céu só é culpado
Num delito (ai de mim!) que não me pesa:
Ele deixou em ti recopilado
De seus astros a face peregrina,
A pompa de seu rosto prateado.
Ele por influência nos destina
A adoração de um bem, cuja luz pura
A liberdade em cárceres domina.
Se minha estrela pois, infausta e escura,
Me conduz a teus olhos, destinada
Vítima de tão rara formosura,
Aos Céus há de chamar minha ânsia irada
Porque dando-me amor tão peregrino,
Me ordenaram fortuna tão pesada.
Injusto, ó Céu, comigo te imagino:
Ou não fora Amarílis tão querida,
Ou fora mais feliz o meu destino.
Mas se era todo o bem da minha vida
Aquela rara idéia da beleza,
Aquela formosura tão crescida,
Como injuriando o obséquio da fineza,
Inda resiste meu cansado alento
Aos assaltos da pérfida fereza!
Quero encurtar da vida o passo lento,
A desgraça igualando, que Anaxarte
Testemunhou no fúnebre instrumento.
Terás, bela Amarílis, terás parte
Na minha ingrata sorte: eu o consinto
Pela glória que tenho de adorar-te.
Frondélio meu, do triste labirinto
Em que já sufocada está minha alma,
Resgata este despojo tão distinto.
Nesta, que os membros gira, mortal calma,
Já nada me consola; nada quero,
Mais que em fé deste Amor render-lhe a palma.
Sossega, meu Salício; eu ainda espero
Que daquela que vês, ingrata, e dura,
Possa ver o semblante menos fero.
Do tempo a direção branda e madura
Tudo sabe mudar; a natureza
É vária; e em variar sempre é segura.
Amarílis, que bárbara despreza
O teu suspiro agora (eu o discorro),
Há de um dia ceder dessa aspereza.
Ah! Que pede meu mal outro socorro
Mais pronto, mais ligeiro: eu imagino
Que te contenta, Amigo, o ver que eu morro.
Sim, meu Frondélio, sim: que onde tão fino
De Amor se ateia o fogo, outro concerto
Não há mais, do que um cego desatino.
Quando não foi de Amor no golfo incerto
A paixão, o delírio, e a loucura,
O norte, que conduz ao desacerto!
Apenas escapou da força dura
De Amor a liberdade, que anda atada
À direção de uma prudência pura.
Jove, o senhor da esplêndida morada,
Deixa do eterno Olimpo a estância amena,
E deixa a Divindade abandonada;
De Europa, Dânae, Leda, e mais Almena,
Vê como foi despojo aquele raio,
Que a soberba de Encélado condena.
Em quantos desatinos faz ensaio
Aquele ativo incêndio, que nos peitos
Imprime Amor com um mortal desmaio?
Gira esses campos; vê os seus efeitos
Tão raros, que estampados na memória
Nunca do tempo se verão desfeitos.
Mas esta de Amor bárbara vitória
Há de crescer mais peregrina, e rara
Na que pertendo dar-lhe, imortal glória.
Tudo já me roubou a sorte avara:
Nenhum bem eu espero já, perdida
A melhor glória, que o meu peito amara.
Aqui quero acabar, Frondélio, a vida,
Dando novas memórias, que este monte
Respeitará na idade mais crescida.
Girando Eco saudosa este Horizonte,
Eu espero que ainda em rouco acento
A minha infausta história ao mundo conte.
Horrorizando a todo o pensamento
Vivirei, aos amantes desatinos
Mil desenganos dando em meu tormento.
E trazendo em lembrança os peregrinos
Excessos de um amor, no bosque inculto
Serei assunto a números divinos.
De hirsutos Faunos no retiro oculto,
Permitida a saudosa cantilena,
Logrará meu amor perene culto.
E tu, por desafogo à minha pena,
Enquanto meu espírito tornado
Em cisne voa à região serena,
Ao triste caminhante encomendado
Um padrão erguerás compadecido,
Naquele monte agreste e descalvado.
Nele fique por último esculpido:
“Aqui jaz... (diga assim a cifra breve)
Salício, por amante perseguido.
Foi infeliz: seja-lhe a terra leve.”
Isto dizia, quando,
Já desmaiado o alento,
Nos braços de Frondélio descansando
O peso triste, em fé do sentimento,
Apenas um gemido
Despediu na lembrança do perdido.
Então o Sol ausente
Aos pousos convidava;
Já de pastar a relva florescente
O seu rebanho cada qual chamava;
Frondélio era um penedo,
Triste, mudo, pasmado, absorto, e quedo.