ÉCLOGA XIII
Que é isto, Sílvio? Aqui tão solitário
À sombra deste freixo! Já não vejo
Na tua companhia o amado Agrário,
Pastor tão belo, que no fresco Tejo
O repete a saudade a cada instante,
Por onde quer que gire a vista errante,
Vales correndo, atravessando serras!
Como também da nossa companhia
Tu, a quem tanto amamos, te desterras,
Com tão triste e fatal melancolia,
Que tudo já teu mal tem estranhado,
Os Pastores, o monte, e o mesmo gado!
Tão diferente estás, tão outro admiro
O teu gênio, Pastor, e o teu aspecto,
Que cuido, neste fúnebre retiro,
Do fado injusto o bárbaro decreto
Te há de usurpar a vida, se entregando
Toda a alma ao sentimento, em ócio brando
Não divertes a mágoa; e se alivia
Qualquer pena, que a um mísero atormenta,
Do amigo, que lhe assiste, a companhia,
Aqui me tens, Pastor; comigo alenta
Essa dor; bem que a vejo tão profunda,
Que temo que este alívio mais confunda.
Que mal, ó Sílvio, foi tão penetrante,
Que este penhasco imóvel da constância
Pôde abalar? Que dor há, que quebrante
Um peito, aonde nunca a mortal ânsia,
O cuidado impaciente, a mágoa aflita
Entrar puderam? Cuido que esquisita
Causa tens para tal: se é que a funesta,
Dura ausência daquele Pastor caro
Teu coração amante assim molesta,
Não chores, não, ó Sílvio: pois reparo
Que em todos nós geral é a saudade,
E o mal comum alívio persuade.
Não eras tu aquele, que ocupando
Entre os Pastores o lugar primeiro,
Em doce estilo os versos entoando,
Te fazias ao monte lisonjeiro?
Que de vezes as árvores e os montes,
As duras penhas, as sonoras fontes,
Correndo atrás do canto que entoavas,
Te vimos atrair, sendo verdade
Então o que tu mesmo nos contavas
Da harmoniosa e cadente suavidade
Do Músico feliz, que já houvera,
Cuja voz os Delfins render soubera!
Agora já dos versos esquecido,
Que alternaste contente, só lembrado
Da insuportável mágoa do sentido,
Tão entregue te vejo a teu cuidado,
Que já não soa o lírico instrumento:
Antes ali de um choupo corpulento,
Como se ele de tédio te servira,
Na tosca rama o vejo estar pendente.
E tu (ai triste!), como se ferira
Teu coração um íntimo acidente,
Confuso estás, pasmado, mudo, absorto,
E menos vivo ainda, do que morto!
Que tens, Pastor? A causa me declara,
Se da minha amizade enfim te fias;
De tão grande tristeza eu desejara
Dar-te todo o prazer; e se porfias
Em ir dobrando a dor, maior excesso
Tens na imaginação; eu te confesso
Que daqui não me aparto, enquanto a dura
Paixão, que te maltrata e te exaspera,
Me não matar também. Ouve; procura
Suavizar, Amigo, a pena fera;
Ou conta-me sequer: na mesma história
Que aviva a dor, diverte-se a memória.
Quem senão tu, Algano, quem pudera,
Senão tu, que os meus passos sempre alcanças,
Achar-me nesta soledade austera,
Onde me conduziu entre esperanças
De alívio não, mas sim, de cruel morte,
Do incerto fado o duvidoso norte!
Aqui estava eu só; e se podia
Haver algum prazer, que inda lograsse
Na desigual fortuna, eu te diria,
Sem que nisso o teu trato desprezasse,
Que nenhum outro fora, mas somente
Seria o estar só, e não ver gente.
Mas já que tu vieste, e pode tanto
Comigo a tua súplica, a corrente
Suspenderei um pouco ao largo pranto;
Enquanto rompo a dor que o peito sente,
Sabe, Pastor amigo, que me custa
Dizer-te a minha queixa: mas se é justa
Esta expressão, escuta o desafogo,
Que entre os largos espaços da saudade
Descobriu o martírio; e só te rogo,
Se alguma compaixão te persuade
Este horroroso, mísero progresso,
Culpa a causa, desculpa-me o excesso.
Querendo lisonjear-me por tais modos,
Tu mesmo a agravar vens a ferida.
Que importa ser geral a mágoa em todos,
Se em quem mais ama a pena é mais crescida!
Agrário, sim, de todos era amado;
Porém de mim foi quase idolatrado:
A qualquer hora, ou fosse noite, ou dia,
Nos vias sempre juntos: a frequência,
O cuidado, o desvelo e a porfia
De um grande amor é certa consequência;
Se Agrário ao monte alguma vez faltava,
Também de Sílvio a ausência se notava.
Fosse de amor segredo, ou simpatia,
Que influi cada estrela na criatura,
Vi-o uma vez; e desde aquele dia
Larga amizade em nós se fez segura.
Podes de seu amor ter por certeza,
Que em mim quase venceu a natureza.
Um gênio me assistia solitário
Até então, de sorte que somente
O doce trato do fiel Agrário
Me fez comunicável entre a gente.
Entre todos vivi; mas ocupado
De Agrário era somente o meu cuidado.
Como não pode haver bem tão seguro
Que o não estrague a bárbara mudança,
No mar incerto do destino escuro,
Tornou-se horror a plácida bonança.
Interpôs-se uma ausência, com que abrindo
O caminho à saudade, consumindo
Esta constância foi, que me animava,
Que tu me louvas tanto: já de todo
Eu, que do fado nada receava,
A arrastar o seu carro me acomodo,
Prostrado já, desfeito e destruído
O templo, que à vaidade tinha erguido.
Bem vejo, Sílvio; a causa do tormento
É justa: eu sei, Amigo, que a amizade
Não se atreve a abrandar-te o sentimento,
E é ofensa o alívio, que persuade.
Mas se nos longes vês de uma esperança
O bem que choras, ó Pastor, descansa;
Que se a dita não pode estar segura,
O mesmo é a desgraça: igual Astréia
Ao peso da balança mede e apura
Tanto o que aflige, como o que recreia.
Aqui tens o instrumento; dá-me o gosto
De ouvir os versos, que aí tens composto.
Na casca deste tronco, onde feria
Mais livremente a ponta deste estilo,
Ao meu Agrário uns versos escrevia;
Duro tormento; e tu queres ouvi-lo!
Mui diferentes são do antigo estado;
É triste o estro; o gênio é magoado.
Não são os que Fileno me ensinava,
A louvar de Amarílis a divina
Beleza, que outro tempo me arrastava:
São porém os que a mágoa hoje me ensina
A lisonjear meu mal: mas se tu queres,
Ouve, que eu leio os tristes caracteres.
Caro Pastor ausente,
Que o teu retrato deixas na lembrança,
Por lograr-te presente,
Quem na memória mais tormento alcança,
Com que contentamento eu te asseguro
No centro d’alma o meu afeto puro!
Tão louca é, e tão cega
De amor a natureza, que sabendo
Que o alívio, a que se entrega,
O seu maior martírio está tecendo,
Gostoso o segue, e adorando o estrago
De ver que o logra, vive muito pago.
Qual aspid se afigura
A lembrança do ausente, que lhe assiste;
Pois entre a pompa escura,
Como entre a flor, o seu veneno triste
Se forja, se alimenta, se fabrica;
E em vez de alívio, morte comunica.
A morte, digo: oh! antes
O encurvado ferro separara
O alento; mas constantes
Os espíritos (pena inda mais rara!),
Como alegres, do mal atormentados,
Na mesma pena vivem obstinados.
Estes discursos forma
Não a razão (que toda está perdida);
A dor, que se conforma
Com a causa, trazendo repetida
A lembrança do bem, é que discorre;
E idéia de outro bem lhe não ocorre.
Contempla as prendas raras
De um Pastor, que na rústica palestra,
Tu, monte, assinalaras
Entre todos distinto, quando a destra
Barra jogava, ou quando mais ativo
Corria atrás de um tigre fugitivo.
Adverte o gênio belo,
Com que o geral agrado concilia,
Podendo ser modelo
De quantos dons a natureza cria:
Lembra-te do sonoro, acorde acento,
Com que entoava o métrico instrumento.
Porém onde me guia
A cansada memória, se conheço
Que está minha agonia
Na mesma frágua, onde os alívios peço!
Destrua-se a memória: acabe embora
Lembrança, que me aflige a toda a hora.
De teu canto foi tal a suavidade,
Que enchendo de prazer este arvoredo,
Tornou alegre a mesma soledade
Que estava de horror cheia, e mais de medo:
Moveu-se aquele tronco de piedade;
Abalou-se este rústico penedo;
Não será de teu mal o rigor tanto,
Que o não mova também teu doce canto.
Para lisonja de meu triste dano,
Essa expressão, bem vejo que retrata
Não teu conhecimento, amado Algano,
Mas teu amor, que tão fiel me trata.
Se as duras queixas de meu mal tirano
Ouvir tua atenção, cousa é tão grata,
O coração, que cheio está de pena,
Repetir outras mais inda me ordena.
Bem te quisera ouvir: mas estou vendo
Que já o pardo crepúsculo do dia,
Por entre as serras ásperas rompendo,
A luz espalha pela sombra fria.
Já o ferro do arado vem gemendo;
Os bois tornam à mísera porfia;
E todos os Pastores despertando,
Da pobre choça as portas vão cerrando.
Bem sinto que me dês tal novidade,
Porque eu vivo de sorte em meu tormento,
Que inda que despertasse a claridade,
Distinguir não pudera o luzimento.
Mas já que este sucesso te persuade
Que a sorte até me quarta o sentimento,
Por não lograr um bem, vamos: mas onde
O meu rebanho (ai mísero!) se esconde?
Não sei por onde pasta o triste gado,
Que eu ontem neste monte apascentava:
Tanto me arrebatou o meu cuidado,
Que nem de mim, nem dele me lembrava;
Vai tu, Algano; cerca deste lado,
Que eu vou bater aquela mata brava,
Onde o trilho é talvez mais perigoso.
Anda; busca o Bargado, e o Baroso.