ÉCLOGA XIII

By Cláudio Manuel da Costa

Que é isto, Sílvio? Aqui tão solitário

À sombra deste freixo! Já não vejo

Na tua companhia o amado Agrário,

Pastor tão belo, que no fresco Tejo

O repete a saudade a cada instante,

Por onde quer que gire a vista errante,

Vales correndo, atravessando serras!

Como também da nossa companhia

Tu, a quem tanto amamos, te desterras,

Com tão triste e fatal melancolia,

Que tudo já teu mal tem estranhado,

Os Pastores, o monte, e o mesmo gado!

Tão diferente estás, tão outro admiro

O teu gênio, Pastor, e o teu aspecto,

Que cuido, neste fúnebre retiro,

Do fado injusto o bárbaro decreto

Te há de usurpar a vida, se entregando

Toda a alma ao sentimento, em ócio brando

Não divertes a mágoa; e se alivia

Qualquer pena, que a um mísero atormenta,

Do amigo, que lhe assiste, a companhia,

Aqui me tens, Pastor; comigo alenta

Essa dor; bem que a vejo tão profunda,

Que temo que este alívio mais confunda.

Que mal, ó Sílvio, foi tão penetrante,

Que este penhasco imóvel da constância

Pôde abalar? Que dor há, que quebrante

Um peito, aonde nunca a mortal ânsia,

O cuidado impaciente, a mágoa aflita

Entrar puderam? Cuido que esquisita

Causa tens para tal: se é que a funesta,

Dura ausência daquele Pastor caro

Teu coração amante assim molesta,

Não chores, não, ó Sílvio: pois reparo

Que em todos nós geral é a saudade,

E o mal comum alívio persuade.

Não eras tu aquele, que ocupando

Entre os Pastores o lugar primeiro,

Em doce estilo os versos entoando,

Te fazias ao monte lisonjeiro?

Que de vezes as árvores e os montes,

As duras penhas, as sonoras fontes,

Correndo atrás do canto que entoavas,

Te vimos atrair, sendo verdade

Então o que tu mesmo nos contavas

Da harmoniosa e cadente suavidade

Do Músico feliz, que já houvera,

Cuja voz os Delfins render soubera!

Agora já dos versos esquecido,

Que alternaste contente, só lembrado

Da insuportável mágoa do sentido,

Tão entregue te vejo a teu cuidado,

Que já não soa o lírico instrumento:

Antes ali de um choupo corpulento,

Como se ele de tédio te servira,

Na tosca rama o vejo estar pendente.

E tu (ai triste!), como se ferira

Teu coração um íntimo acidente,

Confuso estás, pasmado, mudo, absorto,

E menos vivo ainda, do que morto!

Que tens, Pastor? A causa me declara,

Se da minha amizade enfim te fias;

De tão grande tristeza eu desejara

Dar-te todo o prazer; e se porfias

Em ir dobrando a dor, maior excesso

Tens na imaginação; eu te confesso

Que daqui não me aparto, enquanto a dura

Paixão, que te maltrata e te exaspera,

Me não matar também. Ouve; procura

Suavizar, Amigo, a pena fera;

Ou conta-me sequer: na mesma história

Que aviva a dor, diverte-se a memória.

Quem senão tu, Algano, quem pudera,

Senão tu, que os meus passos sempre alcanças,

Achar-me nesta soledade austera,

Onde me conduziu entre esperanças

De alívio não, mas sim, de cruel morte,

Do incerto fado o duvidoso norte!

Aqui estava eu só; e se podia

Haver algum prazer, que inda lograsse

Na desigual fortuna, eu te diria,

Sem que nisso o teu trato desprezasse,

Que nenhum outro fora, mas somente

Seria o estar só, e não ver gente.

Mas já que tu vieste, e pode tanto

Comigo a tua súplica, a corrente

Suspenderei um pouco ao largo pranto;

Enquanto rompo a dor que o peito sente,

Sabe, Pastor amigo, que me custa

Dizer-te a minha queixa: mas se é justa

Esta expressão, escuta o desafogo,

Que entre os largos espaços da saudade

Descobriu o martírio; e só te rogo,

Se alguma compaixão te persuade

Este horroroso, mísero progresso,

Culpa a causa, desculpa-me o excesso.

Querendo lisonjear-me por tais modos,

Tu mesmo a agravar vens a ferida.

Que importa ser geral a mágoa em todos,

Se em quem mais ama a pena é mais crescida!

Agrário, sim, de todos era amado;

Porém de mim foi quase idolatrado:

A qualquer hora, ou fosse noite, ou dia,

Nos vias sempre juntos: a frequência,

O cuidado, o desvelo e a porfia

De um grande amor é certa consequência;

Se Agrário ao monte alguma vez faltava,

Também de Sílvio a ausência se notava.

Fosse de amor segredo, ou simpatia,

Que influi cada estrela na criatura,

Vi-o uma vez; e desde aquele dia

Larga amizade em nós se fez segura.

Podes de seu amor ter por certeza,

Que em mim quase venceu a natureza.

Um gênio me assistia solitário

Até então, de sorte que somente

O doce trato do fiel Agrário

Me fez comunicável entre a gente.

Entre todos vivi; mas ocupado

De Agrário era somente o meu cuidado.

Como não pode haver bem tão seguro

Que o não estrague a bárbara mudança,

No mar incerto do destino escuro,

Tornou-se horror a plácida bonança.

Interpôs-se uma ausência, com que abrindo

O caminho à saudade, consumindo

Esta constância foi, que me animava,

Que tu me louvas tanto: já de todo

Eu, que do fado nada receava,

A arrastar o seu carro me acomodo,

Prostrado já, desfeito e destruído

O templo, que à vaidade tinha erguido.

Bem vejo, Sílvio; a causa do tormento

É justa: eu sei, Amigo, que a amizade

Não se atreve a abrandar-te o sentimento,

E é ofensa o alívio, que persuade.

Mas se nos longes vês de uma esperança

O bem que choras, ó Pastor, descansa;

Que se a dita não pode estar segura,

O mesmo é a desgraça: igual Astréia

Ao peso da balança mede e apura

Tanto o que aflige, como o que recreia.

Aqui tens o instrumento; dá-me o gosto

De ouvir os versos, que aí tens composto.

Na casca deste tronco, onde feria

Mais livremente a ponta deste estilo,

Ao meu Agrário uns versos escrevia;

Duro tormento; e tu queres ouvi-lo!

Mui diferentes são do antigo estado;

É triste o estro; o gênio é magoado.

Não são os que Fileno me ensinava,

A louvar de Amarílis a divina

Beleza, que outro tempo me arrastava:

São porém os que a mágoa hoje me ensina

A lisonjear meu mal: mas se tu queres,

Ouve, que eu leio os tristes caracteres.

Caro Pastor ausente,

Que o teu retrato deixas na lembrança,

Por lograr-te presente,

Quem na memória mais tormento alcança,

Com que contentamento eu te asseguro

No centro d’alma o meu afeto puro!

Tão louca é, e tão cega

De amor a natureza, que sabendo

Que o alívio, a que se entrega,

O seu maior martírio está tecendo,

Gostoso o segue, e adorando o estrago

De ver que o logra, vive muito pago.

Qual aspid se afigura

A lembrança do ausente, que lhe assiste;

Pois entre a pompa escura,

Como entre a flor, o seu veneno triste

Se forja, se alimenta, se fabrica;

E em vez de alívio, morte comunica.

A morte, digo: oh! antes

O encurvado ferro separara

O alento; mas constantes

Os espíritos (pena inda mais rara!),

Como alegres, do mal atormentados,

Na mesma pena vivem obstinados.

Estes discursos forma

Não a razão (que toda está perdida);

A dor, que se conforma

Com a causa, trazendo repetida

A lembrança do bem, é que discorre;

E idéia de outro bem lhe não ocorre.

Contempla as prendas raras

De um Pastor, que na rústica palestra,

Tu, monte, assinalaras

Entre todos distinto, quando a destra

Barra jogava, ou quando mais ativo

Corria atrás de um tigre fugitivo.

Adverte o gênio belo,

Com que o geral agrado concilia,

Podendo ser modelo

De quantos dons a natureza cria:

Lembra-te do sonoro, acorde acento,

Com que entoava o métrico instrumento.

Porém onde me guia

A cansada memória, se conheço

Que está minha agonia

Na mesma frágua, onde os alívios peço!

Destrua-se a memória: acabe embora

Lembrança, que me aflige a toda a hora.

De teu canto foi tal a suavidade,

Que enchendo de prazer este arvoredo,

Tornou alegre a mesma soledade

Que estava de horror cheia, e mais de medo:

Moveu-se aquele tronco de piedade;

Abalou-se este rústico penedo;

Não será de teu mal o rigor tanto,

Que o não mova também teu doce canto.

Para lisonja de meu triste dano,

Essa expressão, bem vejo que retrata

Não teu conhecimento, amado Algano,

Mas teu amor, que tão fiel me trata.

Se as duras queixas de meu mal tirano

Ouvir tua atenção, cousa é tão grata,

O coração, que cheio está de pena,

Repetir outras mais inda me ordena.

Bem te quisera ouvir: mas estou vendo

Que já o pardo crepúsculo do dia,

Por entre as serras ásperas rompendo,

A luz espalha pela sombra fria.

Já o ferro do arado vem gemendo;

Os bois tornam à mísera porfia;

E todos os Pastores despertando,

Da pobre choça as portas vão cerrando.

Bem sinto que me dês tal novidade,

Porque eu vivo de sorte em meu tormento,

Que inda que despertasse a claridade,

Distinguir não pudera o luzimento.

Mas já que este sucesso te persuade

Que a sorte até me quarta o sentimento,

Por não lograr um bem, vamos: mas onde

O meu rebanho (ai mísero!) se esconde?

Não sei por onde pasta o triste gado,

Que eu ontem neste monte apascentava:

Tanto me arrebatou o meu cuidado,

Que nem de mim, nem dele me lembrava;

Vai tu, Algano; cerca deste lado,

Que eu vou bater aquela mata brava,

Onde o trilho é talvez mais perigoso.

Anda; busca o Bargado, e o Baroso.