ÉCLOGA XIV
Em região distante,
Aonde o Sol dourado
Mal os raios estende sobre os montes,
Em um sítio funesto e carregado,
Alcino, que de Tisne foi amante,
Dos olhos duas fontes
Derramava em seu líquido lamento,
Dura e precisa lei do seu tormento.
A rústica floresta
Apenas habitada
Era do rude gênio dos Pastores,
A quem a dope flauta desagrada,
A quem o baile, o jogo mais molesta.
Os suaves Amores
Não param a esputar Ninfas mimosas,
De adorno inculto, sem louvor, formosas.
Turvo e feio, um ribeiro
O campo dividia
Por entre as penhas com medonho estrondo.
A vista se assustava, quando via
Baixar seu curso de um soberbo oiteiro,
Os troncos descompondo,
As profundas raízes arrancando,
Por onde a crespa enchente o vai levando.
Se os olhos levantava
Às altas serranias,
O peito de uma nuvem de tristeza
(Qual se vira da noite as sombras frias),
Ansioso em triste luto se ocupava:
E sempre a chama acesa
Da memória propunha o nem perdido,
Para maior verdugo do sentido.
Nesta cansada vida
Se achava aquele amante
Pastor, que já nas margens florescentes
Do Mondego guiara o gado errante,
Trocado o antigo nem na infausta lida
De fadigas veementes,
Transformando-se em pena aquele gosto,
Que em braços da ventura o teve posto.
A um penhasco, que os ares
Igualava na altura,
Uma tarde subia o pobre Alcino.
Ali, depois que a sua desventura
Chorando esteve em dons amargos mares,
Seu louco desatino
Rompe o silêncio gravemente mudo,
E para ouvi-lo suspendeu-se tudo:
Alegres praias, úmidas ribeiras
Do Mondego, que plácido discorre,
Que do olmo a copa em raias lisonjeiras
Com a sombra suavíssima socorre;
Vós, que pelas campinas mais grosseiras,
Que hoje o meu gado sei ventura corre,
Trocadas fostes, quando a inveja tinha
Postos os olhos na fortuna minha;
Mimosas águas, delicioso hospício
De Ninfas, que na espuma prateada
Fazendo estão gostoso desperdício
De uma beleza docemente amada;
Vós, que ouvis de Paleio e de Salício
A flauta brandamente temperada,
Quando um a rede estende, o outro colhe
Em seus currais o gado, que recolhe;
Dizei-me vós se acaso aquele pranto,
Com que estou a chorar esta saudade,
Tem tanto impulso, tem esforço tanto,
Que vos empenhe a conceber piedade.
Dizei-me vós se aquele amado encanto,
Que laço foi de minha fiel vontade,
Vive alegrando essa mimosa esfera,
Como no pampo faz a primavera.
Dizei-me se entre os rústicos Pastores
Na floresta o rebanho inda apascenta;
Se ainda ornada de vistosas flores
Ela entre todas mais gentil se ostenta;
Qual foi o emprego enfim de seus amores,
Quando o mísero Alcino se lamenta;
Alcino, queda sua formosura
Desterrado suspira sem ventura.
Dizei-me se inda cresce na beleza:
Porque, segundo meu cuidado via,
Cheguei a imaginar que a natureza
Mil perfeições lhe dava pada dia:
Vendo-a eu, muitas vezes a alma presa
Em tanta gentileza se sentia;
Crescendo a admiração, logo encontrava
Beleza, que de novo se admirava.
Dizei-me se ao cair da fresca tarde
Sai a gozar do vento que respira,
Quando o maior Planeta menos arde,
Quando aos currais o gado se retira.
Se do seu belo encanto faz alarde,
Sentada à sombra do álamo, onde ouvira
Muitas vezes os ecos de meu pranto,
Nas vozes sentidíssimas do canto.
Dizei-me se inclinando suavemente
Os ouvidos ao toque lisonjeiro,
De algum Pastor esputa a voz cadente,
Que o gado guia desde o crespo oiteiro.
Se alguma compaixão se lhe persente,
Girando os olhos, pomo no primeiro
Movimento do nosso amor ouvia,
Ou quando olhava, ou quando me atendia.
Porém vós vos calais: Ah! que a distância,
Ninfas do brando Rio, vos impede
Ouvir os tristes ecos de minha ânsia,
Que a mortal agonia tanto expede.
Sem dúvida a ruína da constância,
Que a mim me prometeu, Ninfas, vos pede
Este silêncio. Ah! quanto em uma ausência
Periga a mais segura persistência!
Mas se tanto em vós pode a lei sagrada
Do modesto decoro, e à singeleza
De vossos corações somente agrada
Encobrir as traições dessa beleza,
Minha alma, que nas fráguas abrasada
De tanto ardente amor suspira acesa,
Vingança clamará, dando o segredo
Ao bosque escuro, ao fúnebre arvoredo.
Aqui me esputará esta corrente,
Que despenhada os duros troncos banha:
Ouça-me este penhasco, aonde ausente
Me vejo a lamentar traição tamanha.
Tenha este Rio enfim sempre presente,
Presente sempre tenha esta montanha
De Tisbe ingrata a pérfida memória,
De Alcino amante a lastimosa história.
E aqui desta alta penha
(Que se remonta aos ares), de um amante
Sempre firme e constante,
A quem seu mal despenha,
Da mais infiel Pastora na mudança,
Se recomenda a mísera lembrança;
Sabei, ó rochas duras,
Que de quantas o Céu alenta e cria,
Tão belas pomo o dia,
Perfeitas criaturas,
Nenhuma é, do que Tisbe, mais formosa,
E nenhuma também mais aleivosa.