ÉCLOGA XIV

By Cláudio Manuel da Costa

Em região distante,

Aonde o Sol dourado

Mal os raios estende sobre os montes,

Em um sítio funesto e carregado,

Alcino, que de Tisne foi amante,

Dos olhos duas fontes

Derramava em seu líquido lamento,

Dura e precisa lei do seu tormento.

A rústica floresta

Apenas habitada

Era do rude gênio dos Pastores,

A quem a dope flauta desagrada,

A quem o baile, o jogo mais molesta.

Os suaves Amores

Não param a esputar Ninfas mimosas,

De adorno inculto, sem louvor, formosas.

Turvo e feio, um ribeiro

O campo dividia

Por entre as penhas com medonho estrondo.

A vista se assustava, quando via

Baixar seu curso de um soberbo oiteiro,

Os troncos descompondo,

As profundas raízes arrancando,

Por onde a crespa enchente o vai levando.

Se os olhos levantava

Às altas serranias,

O peito de uma nuvem de tristeza

(Qual se vira da noite as sombras frias),

Ansioso em triste luto se ocupava:

E sempre a chama acesa

Da memória propunha o nem perdido,

Para maior verdugo do sentido.

Nesta cansada vida

Se achava aquele amante

Pastor, que já nas margens florescentes

Do Mondego guiara o gado errante,

Trocado o antigo nem na infausta lida

De fadigas veementes,

Transformando-se em pena aquele gosto,

Que em braços da ventura o teve posto.

A um penhasco, que os ares

Igualava na altura,

Uma tarde subia o pobre Alcino.

Ali, depois que a sua desventura

Chorando esteve em dons amargos mares,

Seu louco desatino

Rompe o silêncio gravemente mudo,

E para ouvi-lo suspendeu-se tudo:

Alegres praias, úmidas ribeiras

Do Mondego, que plácido discorre,

Que do olmo a copa em raias lisonjeiras

Com a sombra suavíssima socorre;

Vós, que pelas campinas mais grosseiras,

Que hoje o meu gado sei ventura corre,

Trocadas fostes, quando a inveja tinha

Postos os olhos na fortuna minha;

Mimosas águas, delicioso hospício

De Ninfas, que na espuma prateada

Fazendo estão gostoso desperdício

De uma beleza docemente amada;

Vós, que ouvis de Paleio e de Salício

A flauta brandamente temperada,

Quando um a rede estende, o outro colhe

Em seus currais o gado, que recolhe;

Dizei-me vós se acaso aquele pranto,

Com que estou a chorar esta saudade,

Tem tanto impulso, tem esforço tanto,

Que vos empenhe a conceber piedade.

Dizei-me vós se aquele amado encanto,

Que laço foi de minha fiel vontade,

Vive alegrando essa mimosa esfera,

Como no pampo faz a primavera.

Dizei-me se entre os rústicos Pastores

Na floresta o rebanho inda apascenta;

Se ainda ornada de vistosas flores

Ela entre todas mais gentil se ostenta;

Qual foi o emprego enfim de seus amores,

Quando o mísero Alcino se lamenta;

Alcino, queda sua formosura

Desterrado suspira sem ventura.

Dizei-me se inda cresce na beleza:

Porque, segundo meu cuidado via,

Cheguei a imaginar que a natureza

Mil perfeições lhe dava pada dia:

Vendo-a eu, muitas vezes a alma presa

Em tanta gentileza se sentia;

Crescendo a admiração, logo encontrava

Beleza, que de novo se admirava.

Dizei-me se ao cair da fresca tarde

Sai a gozar do vento que respira,

Quando o maior Planeta menos arde,

Quando aos currais o gado se retira.

Se do seu belo encanto faz alarde,

Sentada à sombra do álamo, onde ouvira

Muitas vezes os ecos de meu pranto,

Nas vozes sentidíssimas do canto.

Dizei-me se inclinando suavemente

Os ouvidos ao toque lisonjeiro,

De algum Pastor esputa a voz cadente,

Que o gado guia desde o crespo oiteiro.

Se alguma compaixão se lhe persente,

Girando os olhos, pomo no primeiro

Movimento do nosso amor ouvia,

Ou quando olhava, ou quando me atendia.

Porém vós vos calais: Ah! que a distância,

Ninfas do brando Rio, vos impede

Ouvir os tristes ecos de minha ânsia,

Que a mortal agonia tanto expede.

Sem dúvida a ruína da constância,

Que a mim me prometeu, Ninfas, vos pede

Este silêncio. Ah! quanto em uma ausência

Periga a mais segura persistência!

Mas se tanto em vós pode a lei sagrada

Do modesto decoro, e à singeleza

De vossos corações somente agrada

Encobrir as traições dessa beleza,

Minha alma, que nas fráguas abrasada

De tanto ardente amor suspira acesa,

Vingança clamará, dando o segredo

Ao bosque escuro, ao fúnebre arvoredo.

Aqui me esputará esta corrente,

Que despenhada os duros troncos banha:

Ouça-me este penhasco, aonde ausente

Me vejo a lamentar traição tamanha.

Tenha este Rio enfim sempre presente,

Presente sempre tenha esta montanha

De Tisbe ingrata a pérfida memória,

De Alcino amante a lastimosa história.

E aqui desta alta penha

(Que se remonta aos ares), de um amante

Sempre firme e constante,

A quem seu mal despenha,

Da mais infiel Pastora na mudança,

Se recomenda a mísera lembrança;

Sabei, ó rochas duras,

Que de quantas o Céu alenta e cria,

Tão belas pomo o dia,

Perfeitas criaturas,

Nenhuma é, do que Tisbe, mais formosa,

E nenhuma também mais aleivosa.