Écloga XIX

By Cláudio Manuel da Costa

Ó doce soledade!

Ó pátria do descanso

Da paz e da concórdia

Grosseira habitação, tosco palácio!

Quantos a meus delírios

Tu ditas desenganos,

Oráculos fazendo

Das árvores, dos troncos, dos penhascos!

Não fere os meus ouvidos

O estrondo cansado,

Que levanta a lisonja,

Junto aos pórticos d’ouro em régio Paço:

A macilenta inveja

Não derrama o contágio

Nas inocentes almas,

Que são de seu furor mísero estrago.

Dos olhos se retira

O objeto sempre ingrato

Dos que suspiram mudos,

Em vez do prêmio, as sem-razões do dano.

Aqui tem a virtude

Erguido o seu teatro,

E nas rústicas cenas

Aqui mostra a pobreza os aparatos.

As mal seguras canas

Que move o vento brando,

Da pobre rede tecem

Ao mísero Pastor o abrigo caro.

Colhida a tenra fruta

Vem de seu próprio ramo

A adornar a choupana,

Em vez dos altos capitéis dourados.

O sítio venturoso!

Quanto te invejo, quanto!

Ditoso quem possui

O suave prazer de teu descanso!

Se tu bem alcançaras,

Pastor, um bem tão raro,

Não cessara o teu culto

De consagrar obséquios ao teu fado.

Infeliz o que envolto

No tráfego inumano

Da aborrecida corte

Só vê da confusão o rosto infausto.

Imagina do amigo

Seguir os doces laços,

E a torpe aleivosia

Lhe abre o sepulcro onde buscou o amparo.

Se o valimento encontra,

Teme, com justo espanto,

Quanto é grande a subida,

Que o despenho também seja mais alto.

Não há fronte segura

Que enfim dissimulando

Não veja os seus afetos,

Como a flor entre os áspides ingratos.

Ah! mede, Pastor belo,

O bem que alcanças: tanto

Dar-te não pode a corte;

Só pode a soledade deste campo.