Écloga XIX
Ó doce soledade!
Ó pátria do descanso
Da paz e da concórdia
Grosseira habitação, tosco palácio!
Quantos a meus delírios
Tu ditas desenganos,
Oráculos fazendo
Das árvores, dos troncos, dos penhascos!
Não fere os meus ouvidos
O estrondo cansado,
Que levanta a lisonja,
Junto aos pórticos d’ouro em régio Paço:
A macilenta inveja
Não derrama o contágio
Nas inocentes almas,
Que são de seu furor mísero estrago.
Dos olhos se retira
O objeto sempre ingrato
Dos que suspiram mudos,
Em vez do prêmio, as sem-razões do dano.
Aqui tem a virtude
Erguido o seu teatro,
E nas rústicas cenas
Aqui mostra a pobreza os aparatos.
As mal seguras canas
Que move o vento brando,
Da pobre rede tecem
Ao mísero Pastor o abrigo caro.
Colhida a tenra fruta
Vem de seu próprio ramo
A adornar a choupana,
Em vez dos altos capitéis dourados.
O sítio venturoso!
Quanto te invejo, quanto!
Ditoso quem possui
O suave prazer de teu descanso!
Se tu bem alcançaras,
Pastor, um bem tão raro,
Não cessara o teu culto
De consagrar obséquios ao teu fado.
Infeliz o que envolto
No tráfego inumano
Da aborrecida corte
Só vê da confusão o rosto infausto.
Imagina do amigo
Seguir os doces laços,
E a torpe aleivosia
Lhe abre o sepulcro onde buscou o amparo.
Se o valimento encontra,
Teme, com justo espanto,
Quanto é grande a subida,
Que o despenho também seja mais alto.
Não há fronte segura
Que enfim dissimulando
Não veja os seus afetos,
Como a flor entre os áspides ingratos.
Ah! mede, Pastor belo,
O bem que alcanças: tanto
Dar-te não pode a corte;
Só pode a soledade deste campo.