ÉCLOGA XV
Agora, que do alto vem caindo
A noite aborrecida, e só gostosa
Para quem o seu mal está sentindo;
Repitamos um pouco a trabalhosa
Fadiga do passado; e neste assento
Gozemos desta sombra deleitosa.
O brando respirar do manso vento
Por entre as frescas ramas, a doçura
Dessa fonte, que move o passo lento;
A doce quietação dessa espessura,
O silêncio das aves, tudo, amigo,
Ouvir a nossa mágoa hoje procura.
Principia, Palemo; que eu contigo
À memória trarei, quanto deixamos
No sossego feliz do estado antigo.
Que esperas, caro amigo? Sós estamos:
Bem podemos falar: porque os extremos
De nossa dor só nós testemunhamos.
Não vi depois, que o monte discorremos,
Há tantos anos, sempre atrás do gado,
Noite tão clara, como a que hoje temos:
Mas muito estranho ser de teu agrado,
Que despertemos inda a cinza fria
Da lembrança do tempo já passado.
Oh! não sei, o que pedes: bom seria,
Que desse qualquer bem não cobre alento
O estrondo, que talvez adormecia.
Loucura é despertar no pensamento
O fogo extinto já de uma memória:
Não sabes, quanto é bárbaro o tormento.
Em nos lembrarmos da perdida glória
Nada mais conseguimos, que ao gemido
Dar novo impulso na passada história.
Não se desperte o mísero ruído;
Que veremos, amigo, o desengano
De um bem caduco, de um prazer fingido.
Debalde é a cautela; que o tirano,
Contínuo atormentar de uma lembrança
Não o pode abrandar o esforço humano.
Vê, como o teu ardor em vão se cansa;
E quanto mais te negas a meu rogo,
Despertas mais dos fados a mudança.
Buscar no esquecimento o desafogo
É não saber, que neste infausto empenho
Se ateia da memória mais o fogo.
Diga-o minha alma: porque nela tenho
Impressa sempre a imagem de uma dita,
Em que firmava o gesto o desempenho.
Recompensa uma dor quase infinita
A grandeza do bem; a minha história
Deixando em vivo sangue n’alma escrita.
Quero estragar mil vezes a memória,
Meu amado Corebo, e a cada instante
Tornar mais viva a imagem de uma glória.
Oh tirana pensão de um peito amante!
Que só fora feliz, se a água bebera
(Quando perde o seu bem) do Lete errante;
Se na idéia pintada não trouxera
A contínua lembrança de um veneno,
Que Amor dissimulado oferecera.
Ah! Que soluço, amigo, estalo, e peno;
Quando me lembra a hora, em que o tirano
Fado roubou-me estado tão sereno.
Caminhas, ó Palemo, de teu dano
Como insensível: Vês, que não tem modo
Da funesta lembrança o golpe insano.
Bem me advertes, Corebo: eu me acomodo
Ao pensamento teu; e divertida
Fique a memória minha já de todo.
Ao cântico sonoro te convida
Esta flauta, que é fama em nós guardada,
Que foi de Alfeu um tempo possuída.
Eu a tomo, e com ela se te agrada,
Alterno o verso; e seja aquele, que antes
Cantamos lá na nossa retirada.
Se me lembra, assim era: Vinde, errantes
Sombras, a sufocar-nos: porque a inveja
É só fiscal dos míseros amantes.
Ficai, belas ovelhas: assim seja
Convosco mais propício o duro fado;
Que pastor mais feliz vos guie, e reja.
Aqui te deixo, rústico cajado;
Que algum tempo, apesar do empenho cego,
De ninguém, só de mim, foste logrado.
Tu, Amarílis, adorado emprego,
Toma conta de duas ovelhinhas,
Que mais que todas amo: eu tas entrego.
Verás, Belisa, entre essas prendas minhas,
Que eu teci junto às margens dessa fonte,
De vime desigual duas cestinhas.
De ti, que ficas pois, saudoso monte,
Me despeço; e talvez sem esperança
De tornar a ver mais este horizonte.
Ficai-vos em pacífica bonança,
Ó ninfas; que perdido o vosso agrado,
Me ausento a lamentar tanta mudança.
Adeus, pastores; vós, que em doce estado
Tantas vezes nos bailes, na floresta
Me vistes sempre alegre, e sossegado;
De vós me aparta agora a lei funesta;
E o tormento, a que esta alma está rendida,
Bem o meu sentimento manifesta.
Hei de trazer na idéia sempre unida
A imagem de Amarílis, que venero,
E que estimo inda mais, que a própria vida.
Alegria jamais nenhuma espero;
Antes nesta saudosa soledade,
Por último remédio, a morte quero.
Adeus, bela Amarílis; a vontade,
Por ser único bem, levo abrasada
Na chama inextinguível da saudade.
Adeus, Belisa; adeus, ninfa adorada:
Veja-se neste campo eternamente
A tua formosura celebrada.
Basta já de cantar: que do oriente
Já rompe o Sol vermelho; e o manso gado
Os balidos esforça de impaciente.
As nuvens vão correndo; e a este lado
O resplendor se vê, com que a Aurora
Vai escondendo o rosto magoado.
Das lágrimas saudosas com que chora
Se derrama o orvalho; aves, e plantas
Despertam, levantando a voz sonora.
Eu guiarei o gado se tu cantas:
Que prosseguindo tu, de meu tormento
O excesso ao menos, e o rigor quebrantas.
Não me negues, se podes, esse alento.