ÉCLOGA XV

By Cláudio Manuel da Costa

Agora, que do alto vem caindo

A noite aborrecida, e só gostosa

Para quem o seu mal está sentindo;

Repitamos um pouco a trabalhosa

Fadiga do passado; e neste assento

Gozemos desta sombra deleitosa.

O brando respirar do manso vento

Por entre as frescas ramas, a doçura

Dessa fonte, que move o passo lento;

A doce quietação dessa espessura,

O silêncio das aves, tudo, amigo,

Ouvir a nossa mágoa hoje procura.

Principia, Palemo; que eu contigo

À memória trarei, quanto deixamos

No sossego feliz do estado antigo.

Que esperas, caro amigo? Sós estamos:

Bem podemos falar: porque os extremos

De nossa dor só nós testemunhamos.

Não vi depois, que o monte discorremos,

Há tantos anos, sempre atrás do gado,

Noite tão clara, como a que hoje temos:

Mas muito estranho ser de teu agrado,

Que despertemos inda a cinza fria

Da lembrança do tempo já passado.

Oh! não sei, o que pedes: bom seria,

Que desse qualquer bem não cobre alento

O estrondo, que talvez adormecia.

Loucura é despertar no pensamento

O fogo extinto já de uma memória:

Não sabes, quanto é bárbaro o tormento.

Em nos lembrarmos da perdida glória

Nada mais conseguimos, que ao gemido

Dar novo impulso na passada história.

Não se desperte o mísero ruído;

Que veremos, amigo, o desengano

De um bem caduco, de um prazer fingido.

Debalde é a cautela; que o tirano,

Contínuo atormentar de uma lembrança

Não o pode abrandar o esforço humano.

Vê, como o teu ardor em vão se cansa;

E quanto mais te negas a meu rogo,

Despertas mais dos fados a mudança.

Buscar no esquecimento o desafogo

É não saber, que neste infausto empenho

Se ateia da memória mais o fogo.

Diga-o minha alma: porque nela tenho

Impressa sempre a imagem de uma dita,

Em que firmava o gesto o desempenho.

Recompensa uma dor quase infinita

A grandeza do bem; a minha história

Deixando em vivo sangue n’alma escrita.

Quero estragar mil vezes a memória,

Meu amado Corebo, e a cada instante

Tornar mais viva a imagem de uma glória.

Oh tirana pensão de um peito amante!

Que só fora feliz, se a água bebera

(Quando perde o seu bem) do Lete errante;

Se na idéia pintada não trouxera

A contínua lembrança de um veneno,

Que Amor dissimulado oferecera.

Ah! Que soluço, amigo, estalo, e peno;

Quando me lembra a hora, em que o tirano

Fado roubou-me estado tão sereno.

Caminhas, ó Palemo, de teu dano

Como insensível: Vês, que não tem modo

Da funesta lembrança o golpe insano.

Bem me advertes, Corebo: eu me acomodo

Ao pensamento teu; e divertida

Fique a memória minha já de todo.

Ao cântico sonoro te convida

Esta flauta, que é fama em nós guardada,

Que foi de Alfeu um tempo possuída.

Eu a tomo, e com ela se te agrada,

Alterno o verso; e seja aquele, que antes

Cantamos lá na nossa retirada.

Se me lembra, assim era: Vinde, errantes

Sombras, a sufocar-nos: porque a inveja

É só fiscal dos míseros amantes.

Ficai, belas ovelhas: assim seja

Convosco mais propício o duro fado;

Que pastor mais feliz vos guie, e reja.

Aqui te deixo, rústico cajado;

Que algum tempo, apesar do empenho cego,

De ninguém, só de mim, foste logrado.

Tu, Amarílis, adorado emprego,

Toma conta de duas ovelhinhas,

Que mais que todas amo: eu tas entrego.

Verás, Belisa, entre essas prendas minhas,

Que eu teci junto às margens dessa fonte,

De vime desigual duas cestinhas.

De ti, que ficas pois, saudoso monte,

Me despeço; e talvez sem esperança

De tornar a ver mais este horizonte.

Ficai-vos em pacífica bonança,

Ó ninfas; que perdido o vosso agrado,

Me ausento a lamentar tanta mudança.

Adeus, pastores; vós, que em doce estado

Tantas vezes nos bailes, na floresta

Me vistes sempre alegre, e sossegado;

De vós me aparta agora a lei funesta;

E o tormento, a que esta alma está rendida,

Bem o meu sentimento manifesta.

Hei de trazer na idéia sempre unida

A imagem de Amarílis, que venero,

E que estimo inda mais, que a própria vida.

Alegria jamais nenhuma espero;

Antes nesta saudosa soledade,

Por último remédio, a morte quero.

Adeus, bela Amarílis; a vontade,

Por ser único bem, levo abrasada

Na chama inextinguível da saudade.

Adeus, Belisa; adeus, ninfa adorada:

Veja-se neste campo eternamente

A tua formosura celebrada.

Basta já de cantar: que do oriente

Já rompe o Sol vermelho; e o manso gado

Os balidos esforça de impaciente.

As nuvens vão correndo; e a este lado

O resplendor se vê, com que a Aurora

Vai escondendo o rosto magoado.

Das lágrimas saudosas com que chora

Se derrama o orvalho; aves, e plantas

Despertam, levantando a voz sonora.

Eu guiarei o gado se tu cantas:

Que prosseguindo tu, de meu tormento

O excesso ao menos, e o rigor quebrantas.

Não me negues, se podes, esse alento.