ÉCLOGA XVI

By Cláudio Manuel da Costa

Já vinha a manhã clara

Dourando os horizontes,

E os empinados montes

Com a rosada luz, que os prateara,

Mostravam na campina

O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina.

Nas ondas cintilava

O rosto luminoso,

Com que de Cíntia o esposo

A pobre terra clara luz mandava,

Formando um transparente,

Na verde relva, resplendor luzente.

Ambos os pescadores,

Alicuto e Marino,

A quem o Deus Menino

Ateou na água o fogo dos amores,

As redes recolhiam;

E de bastante peixe o barco enchiam.

A praia procurando

Vinham tão mansamente,

Que nem o mar se sente

Ferido de um, e outro remo brando,

Quando do seu destino

Começou a queixar-se assim Marino.

Alicuto o acompanha

Co’a sonora harmonia,

Que, há tempos, aprendia

De um pastor, que viera da montanha;

E a seu modo vertendo

Para a ninfa do mar, ia dizendo.

Se assim como a manhã clara, e brilhante

É da minha adorada o belo rosto,

Como naufraga o peito vacilante,

No incerto mar de um fúnebre desgosto!

Eu vejo, que se alegram neste instante

Cheios de glória, de prazer, e gosto,

Este mar, esta praia, esta ribeira:

Só não há cousa, que alegrar me queira.

Deiopéia adorada, a luz do dia,

Como funesta nasce a um desgraçado!

Quanto me foi suave a noite fria,

Tanto o rosto da Aurora me é pesado:

O silêncio da noite dirigia

O sossego também de meu cuidado;

E apenas foge o horror da sombra escura,

Quando mais viva toco a desventura.

Que importa, que em contínua sentinela

Eu ande os crespos mares descobrindo,

Se ingrata sempre a luz da minha estrela

Me vai desses teus olhos dividindo!

O vento, que suave entesa a vela,

A meu ligeiro barco a estrada abrindo,

Solícito me guia a esta praia;

Onde sem ver-te o coração desmaia.

Três dias há, que giro, amada minha,

Desesperado nesta mortal ânsia

De ver o prêmio, que guardado tinha

A meu peito fiel tua inconstância.

Outra ventura, outra mercê convinha,

De tanto amor, à fatigada instância

E quando o não mereça na verdade,

Quem há, que não te estranhe a falsidade!

Abrasadas as ondas deste pego

Tenho já com meus ais, com meus suspiros;

Ele me escuta; eu cada vez mais cego

Acuso a sem-razão de teus retiros.

De meus males ao passo, que o navego,

O peso sente, e se revolve em giros;

E até as brutas penhas mais pesadas

Estão de meu tormento magoadas.

Qual o peixe inocente, que enganado

Bebe no curvo anzol a morte feia,

Sem ver, que o pescador lhe tem armado

Escondida prisão, em que se enleia;

Ou qual o navegante, que enlevado

No canto está da pérfida sereia;

E prova sem cautela a morte dura

Entre os penhascos, onde o mar murmura.

Qual foge o grande monstro, que o mar cria,

Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;

Quando cuida, que escapa à morte fria,

O alento pouco, e pouco vai deixando;

O destro pescador, que a presa fia

Do agudo ferro, a linha então largando,

Quando de todo já exangue o sente,

O barco chega, e o colhe mais contente.

Tal eu, doce inimiga, sem cautela

Adorava a traição de um falso engano,

Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela.

Sonhe dissimular Amor tirano

Acreditando aquela indústria, aquela

Mal escondida imagem de meu dano,

Imaginei, que o que era aleivosia,

De um fino, e puro coração nascia.

Não de outra sorte a bárbara destreza

Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,

Depois de assegurar minha firmeza,

De mim se ausenta, e com rigor me mata:

Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza

De tua condição, que assim me trata,

Nestas ondas em penha convertida,

Pague o delito de roubar-me a vida!

De que serve, que eu traga do mar fundo,

A preço de fadiga tão pesada,

Esta, que em tal excesso estima o mundo,

Rama, que fora d’água é encarnada?

De que serve; que lá do mais profundo

Venha ofrecer-te a pérola engraçada,

Se encontro sem-razões, iras, rigores?

Se os teus desprezos sempre são maiores?

Para trazer-te o peixe delicado,

No rio escondo as nassas, ninfa minha;

E ao levantar seu peso desejado,

Vejo saltar a truta e a tainha:

Não me fica também no mar salgado

O retorcido búzio, e a conchinha;

Que supondo ser cousa, que te agrade,

Tudo te vem render minha vontade.

Em pensamentos mil eu me desfaço,

Ao ver traição tão bárbara, e tão crua;

Rompo o vestido, o corpo despedaço

Quando me lembra a falsidade tua:

Loucuras mil, mil desatinos faço,

Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua

Corro esta praia, giro esta ribeira;

E ninguém há, que socorrer me queira.

Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto

Quase que vai passando a impaciência.

Que há de ser, se o meu mísero quebranto

Se apodera de mim com tal violência?

Mal haja o ter amor, que pode tanto.

Mal haja o conhecer uma inclemência.

Que intentar-lhe fugir é desatino.

Que assim o sinto eu, e tu, Marino.

Temos chegado ao porto: larga o remo;

Salta na praia tu; que eu aqui fico;

A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo,

E a quem as minhas lágrimas dedico.

Não fiques não, Marino: porque temo

Maior mágoa; que a dor, que sacrifico.

Carreguemos o peixe; que na aldeia

Talvez estejam Glauce; e Deiopéia.

Assim se acomodavam,

E o peixe dividindo

Entre ambos, vão subindo

Um levantado oiteiro, a que chegavam,

Deixando entanto posta

No barco a vara, a rede ao Sol exposta.