ÉCLOGA XVII

By Cláudio Manuel da Costa

Aqui tens, minha Lise, o teu vaqueiro,

Que vem pelo calor do Sol ardente,

A suspirar por ti o dia inteiro.

Com a glória, meu bem, de ter presente

A meus olhos a tua formosura,

Passo de pesaroso a estar contente.

Toda esta noite vi tua figura

Em uma sombra vã, que me fingia

A minha inconsolável desventura.

Só nisto fui feliz: porque te via

Tão branda, tão suave, como aquela

Que a natureza em outra convertia.

Abracei-te, Pastora; e tu, mais bela,

Mais compassiva, ouviste o meu lamento,

Tornando venturosa a minha estrela.

Bem puderas, Laurênio, desse intento

Desvanecer-te já; pois é sabido

Que não posso atender a teu tormento.

Tu conheces mui bem que em meu sentido

Só vive aquela lei, que me sujeita

A não ser livre, como tenho sido.

Eu conheço: mas sei que n’alma aceita

Pode ser a fineza de um serrano,

Que adora uma Pastora tão perfeita.

Se entre os amantes teus é só Montano

O ditoso senhor de um tal tesouro,

De que anda entre nós outros tão ufano:

Soprou-lhe a sorte com melhor agouro,

Que o seu gado não foi de mais estima,

Nem o cajado seu de prata, ou ouro.

É um tosco vaqueiro, que de cima

Da serra aqui desceu: nós o alcançamos

Em tempo de Natércia, tua prima.

De bois uma só junta lhe contamos,

Quando entrou neste campo: triste, e pobre,

Aqui fez uma choça entre estes ramos.

Agora o seu rebanho os vales cobre:

Talvez que o fazer mal isso lhe desse,

E que co’alheio bem hoje os seus dobre.

Miserável daquele que os perdesse!

Que ele, só porque é rico, teve a dita

De que tão bela mão teu Pai lhe desse.

Oh! muitas vezes condição maldita

Esta, que fez no mundo diferença

Entre aquele que tem, ou necessita!

Laurênio, o meu decoro não dispensa

Nessa prática tua: a honestidade

Tem a mais leve sombra por ofensa.

Inda que o meu Pastor te não agrade,

Ou seja murmurada a minha sorte,

É sua esta minha alma, esta vontade.

A lei que me prendeu, somente a morte

A pode desatar: culpa o destino,

Que eu tenho sobre mim poder mais forte.

Pois nem sequer, meu bem, meu desatino

Te chega a merecer uma esperança,

De ser pago algum dia amor tão fino?

Não emprendas de mim mais segurança

Que aquela que te dou: ao Céu protesto

Que em meu obrar não há de haver mudança.

E tu, se me não queres ser molesto,

Deixa de repetir-me essa loucura:

Pois viste o meu desgosto manifesto.

Ó bárbara, ó cruel, ó ímpia, ó dura!

Que, em vez de agradecer-me, te conspiras

Contra uma alma que amar-te só procura.

Se quem te ama merece as tuas iras,

Quem pode estar seguro desses raios,

Que contra tantos mil, cruel, atiras?

Só quem não vê, nem morre nos ensaios

Do cego Deus de Amor. Tudo te adora:

Que em tudo influi Amor os seus desmaios.

Eu só (triste de mim!), eu só, Pastora,

Te adoro mais que todos: que Amor cego

Quis que eu dos tiros seus vítima fora.

Lá desde as verdes margens do Mondego,

Fez Amor que na lira eu me ensaiasse

Para cantar de ti, meu belo emprego.

Mas ah! tirano Amor! quem te arrancasse

Essas asas, com que teu vôo elevas?

Quem arco, aljava, e flechas te quebrasse!

Como é possível, Monstro, que te atrevas

A pôr teu pensamento em tanta altura,

Para cair depois no horror das trevas?

Que bem se diz que vens da massa dura

Do Ródope, ou do Mauro! Que bem creio

Ignoras, cego Amor, nossa brandura!

Tu me condenas a chorar sem freio

Por aquela que zomba do meu pranto;

Que farta o seu rigor do sangue alheio!

Ah! Não, Laurênio, não: não passe a tanto

Esse ingrato delírio: eu inda espero

Que tenha a tua dor algum quebranto.

Apouco apouco me entra o golpe fero

A traspassar esta alma; bem que ignoro

Se é piedade, se amor o que pondero.

Verei se sem ofensa do decoro

Posso achar algum modo de pagar-te

Esse suspiro teu, esse teu choro.

Em todo aquele alento, aquela parte,

Que da casta prisão se julgue isenta,

Eu prometo, Laurênio, de estimar-te.

Vai: leva esta esperança, e te contenta.