ÉCLOGA XVIII

By Cláudio Manuel da Costa

Queres, Menalca amigo, que sentados

Debaixo destes álamos um pouco

Entremos a cantar nossos cuidados?

E crês, Lícida meu, que sou tão louco,

Que me anime a fazer-te companhia

Ao som da minha flauta, que é tão rouco?

Se em outra idade, Amigo, eu o fazia,

Ou Francelisa a flauta me animava,

Ou desculpa nos anos merecia.

Enfada-me o teu modo: eu esperava

Achar-te, Amigo, menos enfadonho,

Lembrando do que um tempo em nós passava.

Queres que torne a entrar naquele sonho

Da néscia mocidade? Ah! que do inverno

Já um novo retrato em mim componho.

Imito já no branco ao cisne terno:

E daquelas vaidades longe o engano,

Com estas cãs maduras me governo.

Já fiz gala, já fiz alegre, e ufano,

Gosto de jogo e bailes: mas agora

Vivo só de escutar o desengano.

Estou pronto a ouvir-te; inda que fora

Importuno a meus anos, bem quisera

Ouvir de um velho a música sonora.

Canta o que te agradar; mas considera

Que me alegrara muito se os amores

Da tua Francelisa ouvir pudera.

Eu tomo a flauta; e tu, canta os louvores

Também da tua Nise, que algum dia

Foi adorado emprego dos Pastores.

Já esta alma os suspiros desafia:

Já entro a perguntar onde encontrar-te

Pode de meus clamores a porfia.

Nise? Nise? Meu bem? Ah! De qual arte

A flauta se afinava, que o lamento

Afável a meu rogo soube achar-te!

Este mesmo suavíssimo instrumento,

Este mesmo entoou aquele canto,

Que tanto foi de teu contentamento.

Na montanha se ouviu, com grande espanto,

A vez primeira que soou, nascida

A branda voz das fráguas de meu pranto.

Que direi eu também da despedida

Que fiz da minha cítara! Ao desprezo

Lançando-a já de todo aborrecida.

O peito, que de amor ardia aceso,

Acudia a emendar o que entoava

Em diversas paixões a um tempo preso.

Que busco, infausta lira?... já clamava.

Vem adorada lira... de outro modo,

A mesma cantilena já trocava.

Ao vale, ao monte, ao bosque, ao campo todo,

Por Nise só pergunto...

Na mudança,

A meu martírio o cântico acomodo.

Entro na festa, baile, jogo, ou dança:

Se não vejo de Nise a gentileza,

Minha alma um só instante não descansa.

Tanto por Francelisa esta alma preza

Morrer depuro amor, que o vale, o monte

Assombrados deixou minha fineza.

Testemunha me seja aquela fonte,

Onde estive a chorar toda uma tarde,

Que não me apareceu ali defronte.

O incontrastável ímpeto com que arde

Este meu coração, diga-o Montano,

Que um dia me chamou fraco e cobarde.

Disse-me que não deve um peito humano

Render-se com tal força ao golpe indigno

Com que nas almas fere Amor tirano.

Foi o primeiro amor: tem o destino

De cada um forjado aquele laço,

Que obra a seu tempo com rigor maligno.

Pastoras desprezei; pouco embaraço

Achava numa e noutra; escarnecia

Daquele, que acusava a Amor escasso.

Vês tu, no despertar da Aurora fria,

O gosto com que os pássaros e as flores

Saúdam docemente o novo dia?

Assim, não de outra sorte, os meus ardores

Ao vê-la tão gentil a cada instante...

A cada instante crescem meus amores.

De um tronco sempre verde e vegetante

Sobre a cortiça dura, em um letreiro,

Ali gravado o nome...

O gado errante,

Perdido, e sem Pastor, sobre este oiteiro

Mil vezes o deixei: desta montanha

O sabe inda o mais rude pegureiro.

Não mais, Lícida; basta: é cousa estranha

Esta ânsia, que em mim vês; entende, Amigo,

Que está zombando assim quem te acompanha.

Tu zombas, quando eu choro?

Em vão prossigo,

Lembrando-me de um bem que é já passado:

Leve-o quem tudo o mais levou consigo.

Seja tua esta flauta; este cajado

Toma, Pastor, também; se esta alma queres,

Recebe-a; mas suporta o seu cuidado.

Feliz Menalca, tu, no que proferes;

Se o tempo já te deve desenganos,

Que eu te acredite, Amigo, não esperes:

A Amor só vence a morte, não os anos.