ÉCLOGA XVIII
Queres, Menalca amigo, que sentados
Debaixo destes álamos um pouco
Entremos a cantar nossos cuidados?
E crês, Lícida meu, que sou tão louco,
Que me anime a fazer-te companhia
Ao som da minha flauta, que é tão rouco?
Se em outra idade, Amigo, eu o fazia,
Ou Francelisa a flauta me animava,
Ou desculpa nos anos merecia.
Enfada-me o teu modo: eu esperava
Achar-te, Amigo, menos enfadonho,
Lembrando do que um tempo em nós passava.
Queres que torne a entrar naquele sonho
Da néscia mocidade? Ah! que do inverno
Já um novo retrato em mim componho.
Imito já no branco ao cisne terno:
E daquelas vaidades longe o engano,
Com estas cãs maduras me governo.
Já fiz gala, já fiz alegre, e ufano,
Gosto de jogo e bailes: mas agora
Vivo só de escutar o desengano.
Estou pronto a ouvir-te; inda que fora
Importuno a meus anos, bem quisera
Ouvir de um velho a música sonora.
Canta o que te agradar; mas considera
Que me alegrara muito se os amores
Da tua Francelisa ouvir pudera.
Eu tomo a flauta; e tu, canta os louvores
Também da tua Nise, que algum dia
Foi adorado emprego dos Pastores.
Já esta alma os suspiros desafia:
Já entro a perguntar onde encontrar-te
Pode de meus clamores a porfia.
Nise? Nise? Meu bem? Ah! De qual arte
A flauta se afinava, que o lamento
Afável a meu rogo soube achar-te!
Este mesmo suavíssimo instrumento,
Este mesmo entoou aquele canto,
Que tanto foi de teu contentamento.
Na montanha se ouviu, com grande espanto,
A vez primeira que soou, nascida
A branda voz das fráguas de meu pranto.
Que direi eu também da despedida
Que fiz da minha cítara! Ao desprezo
Lançando-a já de todo aborrecida.
O peito, que de amor ardia aceso,
Acudia a emendar o que entoava
Em diversas paixões a um tempo preso.
Que busco, infausta lira?... já clamava.
Vem adorada lira... de outro modo,
A mesma cantilena já trocava.
Ao vale, ao monte, ao bosque, ao campo todo,
Por Nise só pergunto...
Na mudança,
A meu martírio o cântico acomodo.
Entro na festa, baile, jogo, ou dança:
Se não vejo de Nise a gentileza,
Minha alma um só instante não descansa.
Tanto por Francelisa esta alma preza
Morrer depuro amor, que o vale, o monte
Assombrados deixou minha fineza.
Testemunha me seja aquela fonte,
Onde estive a chorar toda uma tarde,
Que não me apareceu ali defronte.
O incontrastável ímpeto com que arde
Este meu coração, diga-o Montano,
Que um dia me chamou fraco e cobarde.
Disse-me que não deve um peito humano
Render-se com tal força ao golpe indigno
Com que nas almas fere Amor tirano.
Foi o primeiro amor: tem o destino
De cada um forjado aquele laço,
Que obra a seu tempo com rigor maligno.
Pastoras desprezei; pouco embaraço
Achava numa e noutra; escarnecia
Daquele, que acusava a Amor escasso.
Vês tu, no despertar da Aurora fria,
O gosto com que os pássaros e as flores
Saúdam docemente o novo dia?
Assim, não de outra sorte, os meus ardores
Ao vê-la tão gentil a cada instante...
A cada instante crescem meus amores.
De um tronco sempre verde e vegetante
Sobre a cortiça dura, em um letreiro,
Ali gravado o nome...
O gado errante,
Perdido, e sem Pastor, sobre este oiteiro
Mil vezes o deixei: desta montanha
O sabe inda o mais rude pegureiro.
Não mais, Lícida; basta: é cousa estranha
Esta ânsia, que em mim vês; entende, Amigo,
Que está zombando assim quem te acompanha.
Tu zombas, quando eu choro?
Em vão prossigo,
Lembrando-me de um bem que é já passado:
Leve-o quem tudo o mais levou consigo.
Seja tua esta flauta; este cajado
Toma, Pastor, também; se esta alma queres,
Recebe-a; mas suporta o seu cuidado.
Feliz Menalca, tu, no que proferes;
Se o tempo já te deve desenganos,
Que eu te acredite, Amigo, não esperes:
A Amor só vence a morte, não os anos.