ÉGLOGA XX

By Cláudio Manuel da Costa

Aqui deste salgueiro

Pendente ficarás, ó lira minha!

Tu que foste primeiro,

Enquanto a Amor convinha,

Alívio de meus males,

Ferindo os montes, abalando os vales.

De todo já deixada,

Nem sequer nas imagens da memória

Vivirás retratada;

De tanta antiga glória,

Se consultada fores,

As delícias aponta nos horrores.

Será língua eloquente

A mesma face macilenta: o rosto

De meu mal inclemente,

Pela voz do desgosto,

Com a muda harmonia

Poderá declarar minha agonia.

De Aracne o enredo escuro,

Em ti as débeis linhas estendendo,

Cubra teu centro impuro,

Que, acorde respondendo

Do verso as consonâncias,

Tantas vezes ouviu as minhas ânsias.

Gênio funesto inspire

Sempre em teu dano, e por maior tristeza

De ti não se retire

A fúnebre aspereza

Daquele horror maligno,

Que os passos acompanha a meu destino.

Ludíbrio sejas feio

De todos os Pastores deste monte:

O meu infausto enleio

Teu mudo gesto conte

De um triste e desgraçado

Tosco instrumento, inútil, desprezado.

E se lá quando o dia,

Desmaiando-se o Sol, ao mar se ausenta,

Lá na tarde sombria,

Lisarda, que se ostenta

Destes campos senhora,

Baixar acaso, dando inveja a Flora;

Seu vestígio dourado,

Mais belo do que os goivos e açucenas,

Se inclinar seu cuidado

A este centro de penas,

E aqui te achar pendente,

Triste lira, deixada e descontente;

Quando chegue curiosa,

Sem horror de te ver, ao tronco duro,

A Ninfa mais formosa,

Leia o epitáfio escuro,

Que em fúnebre letreiro

Guardará para sempre este salgueiro.

Breves vozes a história

Explicarão da minha desventura,

Quando empenhe a memória

Desta tão ímpia e dura

Beleza, em vão amada,

Em vão de meus extremos contrastada:

Aqui vivo (este o lema

Que no fúnebre tronco fique escrito)

Para que sempre gema

O tormento infinito

De perder uma ingrata,

Que perjura, e cruel me ofende, e mata.