ÉGLOGA XX
Aqui deste salgueiro
Pendente ficarás, ó lira minha!
Tu que foste primeiro,
Enquanto a Amor convinha,
Alívio de meus males,
Ferindo os montes, abalando os vales.
De todo já deixada,
Nem sequer nas imagens da memória
Vivirás retratada;
De tanta antiga glória,
Se consultada fores,
As delícias aponta nos horrores.
Será língua eloquente
A mesma face macilenta: o rosto
De meu mal inclemente,
Pela voz do desgosto,
Com a muda harmonia
Poderá declarar minha agonia.
De Aracne o enredo escuro,
Em ti as débeis linhas estendendo,
Cubra teu centro impuro,
Que, acorde respondendo
Do verso as consonâncias,
Tantas vezes ouviu as minhas ânsias.
Gênio funesto inspire
Sempre em teu dano, e por maior tristeza
De ti não se retire
A fúnebre aspereza
Daquele horror maligno,
Que os passos acompanha a meu destino.
Ludíbrio sejas feio
De todos os Pastores deste monte:
O meu infausto enleio
Teu mudo gesto conte
De um triste e desgraçado
Tosco instrumento, inútil, desprezado.
E se lá quando o dia,
Desmaiando-se o Sol, ao mar se ausenta,
Lá na tarde sombria,
Lisarda, que se ostenta
Destes campos senhora,
Baixar acaso, dando inveja a Flora;
Seu vestígio dourado,
Mais belo do que os goivos e açucenas,
Se inclinar seu cuidado
A este centro de penas,
E aqui te achar pendente,
Triste lira, deixada e descontente;
Quando chegue curiosa,
Sem horror de te ver, ao tronco duro,
A Ninfa mais formosa,
Leia o epitáfio escuro,
Que em fúnebre letreiro
Guardará para sempre este salgueiro.
Breves vozes a história
Explicarão da minha desventura,
Quando empenhe a memória
Desta tão ímpia e dura
Beleza, em vão amada,
Em vão de meus extremos contrastada:
Aqui vivo (este o lema
Que no fúnebre tronco fique escrito)
Para que sempre gema
O tormento infinito
De perder uma ingrata,
Que perjura, e cruel me ofende, e mata.