ELEGE PARA VIVER O RETIRO DE HUMA CHACARA, QUE COMPROU NAS MARGENS DO DIQUE, E A...

By Gregório de Matos Guerra

Por bem-afortunado

Me tenho nestes dias,

Em que habito este monte a par do Dique,

Vizinho tão chegado

Às Taraíras frias,

A quem a gula quer, que eu me dedique.

Aqui vem o Alfenique

Das pretas carregadas

Com roupa, de que formam as barrelas:

Não serão as mais belas,

Mas hão de ser por força as mais lavadas;

E eu namorado desta, e aqueloutra

De um a lavar me rende o torcer doutra.

Os que amigos meus eram,

Vêm aqui visitar-me;

Amigos, digo, de uma e outra casta:

Oh nunca aqui vieram,

Porque vêm agastar-me,

E nunca deixam cousa, que se gasta.

Outro vem, quando basta,

Fazer nesta varanda

Chacotas, e risadas,

Cousas bem escusadas,

Porque o riso não corre na quitanda,

Corre de cunho a prata,

E amizade sem cunho é patarata.

A casa é espaçosa

Coberta, e retelhada

Com telha antiga de primeiro mundo,

Palha seca, e frondosa

Um tanto refolhada

Da que sendo erva Santa, é vício imundo;

O torrão é fecundo

Para a tal erva Santa:

Porque esta negra terra

Nas produções, que erra,

Cria venenos mais que boa planta:

Comigo a prova ordeno,

Que me criou para mortal veneno.